Uma questão de EVO-lução

       O mundo do automóvel sofre de tendências e de clubismos, tal como qualquer outra paixão. No futebol por exemplo, os adeptos criam discussões por lances divididos, más decisões de arbitragem ou até por simples atitudes de jogadores em campo. Incita-se o ódio, crescem as amarguras e há até zangas, ofensas e agressões verbais e em última instância, físicas. O mau comportamento dos adeptos mancha o desporto e é assunto constante em noticiários. No automobilismo não há revolta, não há ódio, não há violência. É uma paixão descomplicada, alimentada por gostos diferentes mas que se completam, que se compreendem e acima de tudo, se respeitam. E é isto, em qualquer nação do mundo, em qualquer continente mas em alguns países esta paixão é algo bem mais intrínseco, mais vivido. Benvindos ao Japão.

Temos muitas fotos... a escolha de quais colocar aqui é muito difícil!

      Não, não fomos até ao outro lado do mundo até porque com a excitação em torno do coronavirus, não arriscaríamos ter de ficar presos numa sala de aeroporto asiático à espera de decisões clínicas. E porquê agora? Por que razão só agora fazemos um artigo especial e dedicado a um ícone automóvel japonês que tanto fez e ainda faz sonhar os petrolheads um pouco por todo o mundo? O Lancer Evolution como o conhecemos nas suas 10 gerações despediu-se dos mercados, já não há mais, não se produz. A marca nipónica fala num retorno da sigla Evolution (Evo, para abreviar) mas acreditem, com a evolução do mercado automóvel, apostamos que será mais um SUV ou um pequeno utilitário, tal como aconteceu ao Eclipse ou mais recentemente ao Ford Puma e Mustang!

Foi até escurecer.

     A herança do rally está presente em cada parafuso e peça de cada um dos Lancer Evolution feitos. Inicialmente com o intuito da homologação e produção de uma versão picante de um familiar, a Mitsubishi depressa se apercebeu do culto e sucesso da palavra Evo e rapidamente estabeleceu como objectivo em cada geração do Lancer, fazer uma versão potente, uma arma na estrada, na pista e até num estradão de terra batida. A tracção integral, a suspensão desportiva rebaixada, o chassis preparado para ser maltratado são itens que fazem deste desportivo um dos mais fantásticos automóveis onde se pode andar a curtir umas curvas.

     E se este artigo está nos especiais, é porque é mesmo especial. Desafiamos o Luis e o Filipe para nos acompanharem numa tarde pela Serra de Montejunto, que aparenta ter sido recentemente descoberta pelos Youtubers e Influencers do ramo automóvel pois tem sido bastante «utilizada» nos seus vídeos. Nada que nos incomode, pois realmente aquela Serra tem algo de mágico, especialmente na chamada golden hour. E não é difícil perceber porquê. Geograficamente inseridos no contexto, temos então dois Mitsubishi Lancer Evolution, um da sexta geração e outro da sétima, no mesmo tom de cinza prata que cintila pela estrada, saltitando de curva em curva. E se curvam! Serra acima o ímpeto de cada um destes Evo’s é impressionante. A forma como progride na estrada, como nos deixa encostados ao banco e como descreve as curvas mais apertadas é algo de fenomenal. Parecem flutuar no alcatrão até à curva, altura em que cada um dos Evolution tira as garras de fora e se agarram ao asfalto, esmagando as forças G nos nossos pescoços e coluna. Visceral!

     A ideia inicial era apenas fazer algumas fotos de comparação de gerações mas rapidamente nos deixámos levar pelo entusiasmo e disponibilidade dos dois fez com que passássemos 4h a fotografar em várias zonas de Montejunto e que suportássemos temperaturas de 6 e 7 ºC no final da tarde. Um sacrifício que claramente saiu recompensado quando olhamos para as mais de 800 fotografias tiradas e para o produto final que aqui apresentamos. Este é o nosso momento de dar os parabéns pelo sucesso do Lancer Evolution, este é o nosso tributo a este automóvel.

     Com as novas regras da homologação da FIA a marca japonesa viu-se obrigada a apertar com alguns detalhes no seu modelo de competição para rally, o na altura Galant VR-4. Mais rígido, mais tecnológico e mais rápido, o Galant foi a montra para o desenvolvimento do Lancer, sendo que o primeiro Lancer Evolution era basicamente uma carroçaria do Lancer no «corpo» do Galant. E se resultou. De 1992 a 2016 foram construídos milhões de Lancers, milhares de Evolutions e centenas de versões especiais, limitadas e numeradas. Mas em comum todos eles partilham 3 factores: o motor 2 litros, a tracção integral e o espírito de competição de Rally.

Sabem aquela expressão «tanto faz»? Pois nesta tarde podemos aplicar isto.

      Tal como muitos dos modelos mais limitados ou desportivos de marcas orientais, a sua comercialização começou por ser local, no mercado japonês mas depois de ver o sucesso do eterno rival Subaru Impreza WRX e STI no mercado europeu e americano a Mitsubishi resolveu alargar a oferta através da rede de revendedores da Ralliart, submarca que é responsável por apimentar os Evo’s. Outro detalhe engraçado relacionado com os Evolution é que todos eles saíam «supostamente» da fábrica limitados a cerca de 280 cavalos, devido ao já famoso acordo de cavalheiros entre as marcas japonesas mas o que é facto é que os motores de 2000 cc eram capazes de produzir, de fábrica, quase 440 cavalos, apenas com o limitador removido e claro, bom afinamento, especialmente no mercado do Reino Unido e Americano (aqui apenas com uma mãozinha dos chamados tuners).

    Agora que já leram algumas linhas e que se babaram (vá, assumam que o fizeram) com a beleza destes dois nipónicos, vamos falar um pouco sobre cada um deles, embora tendo sempre em mente que a evolução destes Evolutions foi sempre meticulosamente preparada pela Mitsubishi para que fosse essencial mas não desvirtuadora da genética dos Lancers mais apimentados. E como os números assim o definem, começamos pelo Evo VI do Filipe, um aficionado de automóveis no geral mas com carinho especial pelos nipónicos. Recordam-se do Mazda MX5 ND que fotografámos? Pois, é do Filipe também, a par de um NB de extrema elegância também mas… vamos a este Lancer Evo VI.

    Tal como as versões anteriores, também o Evo VI contou com versões mais apimentadas e limitadas. O RS e o GSR eram as siglas a ter junto ao logo VI sendo que foi com o sexto modelo da gama Lancer Evolution que surgiu o RS2, versão que juntava a eficiência do RS com os extras do GSR. Depois havia ainda as versões especiais dos mercados tal como o RS Sprint especifico do Reino Unido, mais potente, mais leve e com a mão da Ralliart na mecânica. Mas a versão que marcou esta geração foi sem dúvida a Tommi Makinen Edition que celebrou os quatro campeonatos WRC conseguidos por Makinen ao volante de um Mitsubishi. Disponível em cores específicas (vermelho apenas disponível nesta versão, branco, cinzento ou azul) com opção de decoração vinil que invoca o aspecto do carro de competição de Tommi, contava com um pára-choques frontal redesenhado, baquets Recaro vermelhas com a assinatura do piloto bordada e a manete de mudanças Momo, jantes Enkei brancas de 17 polegadas associado a uma suspensão mais baixa, melhor eficiência do sistema de arrefecimento e uma caixa de velocidades mais curta. Há quem chame a essa versão a final do Evo VI, o Evo 6 e meio (6 ½) ou TME, abreviando.

     Este Evo VI tem algumas melhorias face ao original. A centralina Ralliart foi o primeiro item da lista que o Filipe nos contou e que, diz com um sorriso, melhorou a já de si fantástica aceleração (o facto de ter tracção integral potencia a experiência e cola-nos às baquets. Conta ainda com escape HKS que é uma autêntica sinfonia enquanto subimos a serra, sendo capaz de um tom mais grave e sereno em autoestrada mas ainda assim bem audível. Mas somos petrolheads que gostam de uma boa nota sonora pelo que «aguentar» o ronco foi de certa forma, bastante tranquilo. Outra coisa que salta à vista… bem, aos ouvidos é a admissão também da HKS que faz aquele som que tanto adoramos de puxada de ar, terminando com a dump-valve a descarregar. Parece que estamos num filme do Velocidade Furiosa mas sem as 50 mudanças de velocidade e os aeroportos com pistas de 100 km’s. Não, estamos a bordo de um desportivo japonês, com som e potência e claro, visual a combinar e cuja história e importância no mundo automóvel já lhe vale um lugar no museu dos mais belos e fantásticos automóveis de sempre.

Um ângulo abusado para um automóvel que abusa das leis da física!

     Subimos um número romano e passamos ao Evo VII. O Mitsubishi Lancer Evolution VII trazia, na altura do seu lançamento, um importante legado desportivo, especialmente devido ao sucesso no WRC. E foi devido a esta mesma presença da marca nipónica no escalão máximo do Rally que surge o Evo VII, dado que a FIA obrigou a marca a seguir as regras de homologação do WRC em vez dos carros do Grupo A. Assim sendo, havia limitações no peso e detalhes técnicos a superar. A Mitsubishi pegou então na plataforma do Lancer Cedia para começar e desde logo assumiu uma série de alterações no chassis para combater o “engordar” do Evo, nomeadamente a utilização de um diferencial central associado ao chamado slip-diff  e a outro diferencial limitado na frente. Aumentaram o binário e apesar de «oficialmente» continuar com 280 cavalos, muitos foram os Evo VII a medirem mais de 300 cavalos em banco logo após saírem dos stands.

     Tal como a anterior geração, também o Evo VII teve várias versões, algumas mais limitadas que outras. A grande novidade foi a introdução de uma caixa automática numa versão que se passou a chamar GT-A. Esteticamente semelhante ao GSR e ao RS2, o GT-A tinha nos detalhes a sua identidade: jantes diferentes de 17 polegadas, farolins lisos e faróis da frente mais estilizados (a usar posteriormente no Evo VIII) e a opção de incorporar um spoiler traseiro baixo, o spoiler que vemos nas fotografias ou até a hipótese de não ter nenhum. O Lancer Evo VII conta de fábrica com um interior bem ao estilo japonês: simples, intuitivo e neste caso, bastante desportivo. O volante em alumínio e pele de excelente pega, as baquets Recaro e a caixa de velocidades perfeitamente escalonada são alguns dos mimos que este VII oferece a quem o conduz.

     E foi a bordo deste VII que soubemos algo sobre este Evolution. O Luis tem-no à pouco tempo e a compra deveu-se à paixão que nutre pelos rallys, especialmente pelo grupo N, onde ainda hoje os Lancer VII são dos mais utilizados.nesta competição. Além disso, o «bichinho» ficou mais ativo quando um amigo comprou este mesmo Lancer e dia-sim, dia-sim ia fazendo a conversa de lho comprar até que há cerca de um ano lá conseguiu, revertendo-o ao seu estado original, removendo todo o sistema de som que fazia peso a mais e colocando apenas um pequeno extra: os vidros traseiros escurecidos. De revisão feita e manutenção cuidada, este Evo VII apresenta-se imaculado, com uma saúde fantástica e pronto a devorar quilómetros, sendo um dos objectivos de Luis para 2020 fazer a Nacional 2, vontade que cresceu depois de ver o nosso artigo sobre essa mesma estrada que atravessa Portugal de fio a pavio.

     E que mais podemos dizer? Arrancar de Almada de Evo VI e encontrar o VII já em Montejunto, subir a serra em modo »chegar atrasado ao emprego», fazer as curvas com a plena ideia de que não sairemos disparados do banco, estando colados a um carro de montanha russa, com travagens confiantes, puxadas demoníacas… é difícil superar um passeio assim. As fotografias transmitem os carros em si, as palavras, a dinâmica e a aventura mas as sensações… essas ficam na nossa mente e no nosso coração, de forma a que depois seja aqui neste artigo que as colocamos para tentar transmitir tudo isso a quem nos segue e confia em nós. 2020 está aí, preparem-se!

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