The Super Sport Sedan

   Há certas coisas que nos fazem mais sentido quando atingimos uma certa idade. Se quando éramos crianças não fazíamos ideia do quanto íamos gostar de cerveja um dia mais tarde, para muitos outros era igualmente estranho vir a desenvolver algum tipo de sentimento por um corpo metálico com quatro rodas. Mas na All Wheels Photography não vamos falar desses tantos. Vamos falar daqueles que ficavam com um brilho nos olhos quando viam passar um certo carro na estrada. Vamos falar da história dos que souberam esperar por uma oportunidade na vida ou tiveram um golpe de sorte e o carro dos sonhos entrou-lhes pela oficina dentro.

   Costumamos dizer que os automóveis de certa idade ficam mais bonitos não pelo amadurecimento das suas linhas mas pela «decoração» que o tempo que passam com os seus donos lhes deu. É certo que nem todas as histórias são felizes, algumas deixam cicatrizes quer no homem quer na máquina, mas o importante dessas histórias é que ficam gravadas na personalidade do automóvel e lhe conferem a identidade, a alma que tantos donos conseguem ver nos seus companheiros de estrada. Um bom clássico japonês é um livro de histórias desde que saiu da fábrica e é, por si só, um vira-cabeças para a equipa da AWP. O Datsun que vos trazemos neste artigo é daqueles clássicos japoneses que nos fazem ficar com lesões nos pescoços de tantas vezes o seguirmos com os olhos. Esta é a história deste fantástico SSS e do Rui.

     Após várias tentativas de combinar com o dono deste «japuna» e com múltiplos cancelamentos devido ao S. Pedro, lá se aproveitou um rasgo de sol no céu e uma aberta nas agendas para numa manhã de domingo, irmos tomar o pequeno-almoço com cheiro a gasolina bem queimada. Para um de nós na AWP o dia era de tremenda excitação. Afinal de contas, não era todos os dias que fotografamos não só um ícone dos clássicos japoneses com pedigree desportivo mas também um dos clássicos de sonho e que encabeça a lista dos must have na garagem daqui a uns anos. Portanto sim, estávamos entusiasmados mas um de nós estava mesmo nas nuvens!

   Encontramo-nos com o SSS e o seu dono na Figueirinha, praia da Arrábida conhecida pelas suas águas cristalinas e excelente vista para a Serra e para Tróia. O plano passava por algumas fotos junto à areia da praia, pois o azul metálico e extremamente bem cuidado do SSS contrasta na perfeição com a luz reflectida pelas areias da praia mas o dia convidava a banhos e por isso, muitos foram os que aproveitaram o mesmo sol que nós, para uma ida a banhos ou apenas um passeio de família. Assim, recorremos ao plano B e rumámos a outra localização, mais recatada e calma de forma a podermos estar mais à vontade. Pelo caminho, foi interessante ver o SSS colado à traseira do nosso carro, sempre sem problema a descrever as curvas da Serra da Arrábida; por momentos sentimo-nos o carro zero das provas de rally. Uma visão agradável no nosso espelho retrovisor.

   Chegamos então a uma das estradas que cruzam a Serra e ligam a N10 à N379 que percorre a Serra, serpenteando pelos cumes e vales do paraíso que é a Arrábida. Sentimo-nos sempre em casa neste local, onde o bom alcatrão, curvas encadeadas, descidas acentuadas e parabólicas cegas se cruzam com o ar puro da serra e o cristalino das águas da baía de Setúbal. O que podemos nós querer mais? Ah, claro… um excelente automóvel para apreciar tudo isto.

    Depois de analisados todos os ângulos do SSS, lá começamos a fotografar. O sol já vai alto e coloca-se em posição para nos iluminar a sessão fotográfica, com o verde dos campos envolventes a ajudar aos contrastes de cores que desejamos. Enquanto fotografamos, aproveitamos para fazer algo que tanto gostamos: conhecer a história deste clássico. E que história!

É fascinante como ao fim de tantas décadas, este Datsun se mantém incrvelmente bonito, elegante e simultaneamente com o cariz desportivo com que ficou conhecido.

   O actual dono deste SSS desde cedo desenvolveu uma paixão por automóveis. O seu pai era dono de uma oficina por onde passavam vários ícones da década de 70 e 80 e como seria de esperar, Rui (o dono deste SSS) passava algumas horas na oficina a ver, a conhecer os automóveis e a conhecer as suas histórias. Aprender sobre carros num ambiente destes é o sonho de qualquer petrolhead. A paixão automóvel conheceu o seu pico quando entrou na oficina o Datsun 1600 SSS de um cliente do pai do Rui para uma revisão. O na altura dono deste japonês admirou o trabalho feito no mesmo e passou a realizar as revisões anuais naquela oficina e a paixão pelo SSS foi crescendo. O anterior dono estava emigrado na Alemanha e o pequeno SSS permanecia fechado numa garagem durante todo o ano, circulando apenas durante as férias, durante algumas semanas e era nesses períodos que o Datsun era seguido, intervencionado e melhorado na oficina do pai do Rui, em Sintra. Tinha o Rui 12 anos quando o viu pela primeira vez na oficina. Conta, entusiasmado, que foi paixão à primeira vista, principalmente porque era um «carro de corridas» para a estrada. Afinação após afinação, o Rui lá via este SSS ser revisionado pelo seu pai, e o carinho pelo modelo foi-se afirmando. Parecia quase como que uma história entre dois grandes amigos, que conforme se iam conhecendo melhor, maior era a amizade e a vontade de estarem juntos.

   Anos depois, o anterior dono faleceu e a sua filha colocou o SSS à venda; foi uma excelente oportunidade para o pai do Rui, pois conhecendo o historial mecânico do mesmo, tornou-se obrigatória a aquisição do Datsun para restauro mais tarde. Infelizmente o tempo para o restauro foi subitamente interrompido com o falecimento do pai do Rui e o SSS permaneceu parado a aguardar melhores dias sendo que em 2013 se reiniciaram os trabalhos no mesmo, até ficar no excelente estado que mostramos neste artigo. Foi «uma verdadeira prova de homenagem ao trabalho e dedicação do meu pai» conta o Rui, emocionado. Nós na AWP gostamos de contar as histórias por detrás de cada veículo que fotografamos mas esta foi uma das mais gratificantes pois pudemos conhecer em primeira mão uma história de paixão e homenagem a alguém, através do automóvel.

O sol convidava a explorar este SSS de ângulos mais abusados.

   Depois de conhecer toda a história deste SSS, mudamos de tópico de conversa. O tempo voa, mas temos de saber mais sobre este clássico japonês, com genes de competição que saltam à vista em cada ângulo, em cada cromado. Com vitórias em 1969 e 1970 em alguns Rally, como no Rally Safari e na Baja 500, o Datsun 1600 SSS transpira pedigree. O capot longo e robusto com pequenas saliências termina na frente, onde as 4 ópticas frontais envoltas numa grelha horizontal e o logo SSS anunciam o carácter desportivo deste clássico. Ao longo do perfil deste japonês, o formato familiar salta à vista mas ainda assim, a desportividade mantém-se, com cavas de rodas generosas e com os logos Datsun 1600 e SSS a assinarem este veiculo. 

    Na traseira, o tubo de escape pequeno mas sonoro, com o célebre brapp brapp a surgir em rotações mais elevadas, anuncia a chegada deste pequeno Datsun mesmo quando ainda não se vê. Este automóvel é uma verdadeira delícia para os apreciadores, com cromados e detalhes já tocados pelo tempo, com a patine certa para esta idade.

       Entrando no interior, destacamos logo o volante de três braços e centro metálico, conferindo um aspecto mais desportivo ao ambiente familiar deste 4 portas. O tablier simples, cru mas eficaz na leitura junta-se aos bancos em pele para terminar o ambiente a bordo, que nos faz sentir como que numa viagem no tempo quando estamos lá dentro. Um destaque da herança desportiva deste modelo, a manete de velocidades a celebrar a vitória na Trans Am 2.5, um excelente detalhe neste interior.

    Já que estamos a «despir» em detalhe este Datsun, vamos ao motor. Este pequeno SSS conta com um 1600 de código L16, que no nosso país saiu com duas potências: 105 e 109 cavalos, sendo que mesmo a própria marca, na altura da comercialização e posteriormente, nunca soube explicar o porque das diferenças. Este modelo da sessão será a versão de 105 cavalos, embora segundo os entendidos neste modelo japonês, não haverá diferenças entre ambos. Segundo estes mesmos prós na matéria, as diferenças de potência prendia-se com as leis de emissões que entraram em vigor a meio da comercialização do modelo. Este SSS tem uma excelente taxa de compressão de 9,5:1 o que permite disponibilizar um binário fantástico para este pequeno motor, o que facilita a circulação em estrada, pois podemos circular em 4ª velocidade logo a partir dos 40 km/h e ver o velocímetro galopar até aos 140 km/h sem grandes dificuldades. Um verdadeiro lobo em pele de cordeiro que segundo o Rui, envergonha muitos carros recentes e arranca sorrisos e gestos de aprovação quando abordado por outros, na estrada.

    A manhã literalmente passou a voar entre fotos, conversa, gargalhadas e momentos mais emotivos. Foi uma tremenda satisfação conhecer um verdadeiro apaixonado automóvel que levou essa mesma paixão a outro nível, ao nível da homenagem a um grande homem, o seu pai. Arrancamos da estrada onde realizamos a sessão para um último local de forma a realizarmos algumas rolling shots. O sol manteve-se no céu e ajudou imenso à captação de excelentes fotos. Entrámos na N10 em direcção a Azeitão e virámos para a Serra já depois de Vila Nogueira de Azeitão, em direcção à entrada norte da Arrábida. As estradas desimpedidas permitiram-nos aproveitar o alcatrão e ver que o Datsun 1600 SSS além do aspecto desportivo, comporta-se como tal, saltando de curva em curva com uma agilidade surpreendente e mesmo superior a alguns desportivos atuais. Que pequena pérola este clássico. Chegamos a um local do parque natural da Arrábida por nós apelidado de Parque Jurássico para mais 15 minutos de conversa e despedimo-nos com um abraço e a promessa de novos encontros e novas oportunidades de trocar ideias e quem sabe, novos projectos. Mais do que uma sessão fotográfica, ganhámos aqui um amigo com uma paixão em comum: a paixão automóvel.

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