The Fk8

    Dois anos. Dois anos de All Wheels Photography. Dois anos de muitas fotografias, artigos, textos, quilómetros feitos e principalmente, muitas amizades que ainda hoje perduram e nos vão ajudando a crescer. Para o nosso segundo aniversário, queríamos trazer algo especial (sentimos que vamos dizer isto todos os anos) e as hipóteses em cima da mesa eram bastantes. No entanto e tendo em conta as novidades mais recentes no mundo automóvel, decidimo-nos por analisar um modelo que tem feito correr muita tinta e megabytes de informação nas últimas semanas. Para isso, resolvemos ir até aos recantos da Serra de Sintra e aproveitar o tempo mais nublado e húmido tão típico da zona para mostrarmos a nossa «prenda».

Dia chuvoso, estrada sinuosa e um Type R!

    De curva em curva e ladeado por um cenário verde e ídilico, levámos o fantástico (e novíssimo) Honda Civic Type R a percorrer as estreitas estradas daquele pedaço de paraíso às portas de Lisboa. E se o cenário é verde, o carro é… vermelho! Há melhor contraste que este? Bem, nacionalismos à parte, a quinta geração do desportivo da Honda é um dos casos claros de amor-ódio por parte dos que se cruzam com ele na estrada ou nas publicações jornalisticas e independentemente das análises, o que é facto é que o Type R é um automóvel que faz palpitar os corações, especialmente em modo «R». Esta quinta geração foi apresentada no Salão de Genebra do ano passado e rapidamente se tornou no veículo lá presente a ter mais reviews, críticas e a roubar as atenções até das marcas chamadas premium.

       Cada vez que é lançado um novo Civic, os fãs da marca e apaixonados por velocidade ficam na expectativa de verem a versão desportiva correspondente mas a Honda, devido a limitações de orçamento e decisões de gabinete, nem sempre corresponde a esta necessidade dos petrolheads. Por isso é que vos trazemos a quinta geração do Civic Type R, baseado na décima geração do compacto familiar da marca japonesa. Confusos? Não há necessidade disso. Basicamente a Honda usa a cartada dos desportivo para encerrar uma geração, fazendo a ponte para a nova, não só estilisticamente, como em termos de tecnologia e de novidades mecânicas.

Postura agressiva em mais uma paragem para fotografar este Fk8.

    O Type R, na Honda, retrata as versões «musculadas» e desportivas dos seus modelos. O Civic, o Integra e até o NSX conheceram em tempos versões mais leves, potentes e dinamicamente superiores que as versões base. Com motores mais capacitantes, travões eficazes e acertos de suspensão, os Type R ainda hoje são verdadeiras máquinas de pista feitas para a estrada e que permitem ao seu condutor ser piloto em cada deslocação, por mais curta que seja. E claro que o novo Civic (com a plataforma FK8) não é excepção. Dotado de uma nova imagem, novos argumentos e claro, melhoramentos globais, este Civic Type R é um verdadeiro desportivo.

   Como se estivéssemos numa estrada de montanha no Japão (touge), apontámos o Type R aos vários pontos de paragem para fotos e avançamos. Antes de ligar o motor, admiramos o automóvel em si. As críticas a este modelo começaram logo no dia em que o modelo viu a luz do dia, nomeadamente no que concerne à estética. Para muitos, os excessivos apêndices aerodinâmicos, as entradas (e saídas) de ar e claro, a tripa saída de escape são, como já referimos, excessivos. No entanto, tudo tem explicação, segundo Hideki Kakinuma, chefe de desenvolvimento do projecto R. E lá chegaremos.

Pronto para atacar a estrada.

   Depois de largos minutos a descobrir cada ângulo deste Type R, decidimos que a estrada da Lagoa Azul era um excelente local para experimentar o Civic e conduzir-nos ao longo dos vários point-and-shoot que existem pela Serra de Sintra. E começamos logo por perceber que este compacto desportivo não é dócil no tratamento que pede e muito menos é molengão. E ainda nem carregamos no botão mágico que aumenta a resposta do acelerador, abre as «goelas» ao escape e coloca a direcção mais precisa para uma melhor experiência de condução. A evolução do motor VTEC de 2 litros tem agora 320 cavalos (mais 10 que o antecessor) e solta 400 nm de binário. Sim, parece pouco os 10 cavalos de diferença e sabemos por parte da Honda que este motor aguentava mais, o que nos leva à pergunta: porquê? Porquê apenas mais 10 cavalos? Kakinuma-san reponde a estas questões sem qualquer interrupção. O curto intervalo de tempo de desenvolvimento entre ambas as gerações Civic Type R (FK2 e FK8) limitou a possibilidade em estudar a melhor forma de aumentar a potência em mais de 10 cavalos e sinceramente, tal como pudemos constatar, 320 chegam.

     A melhoria dinâmica com a afinação da suspensão McPherson dianteira, novas barras de antiaproximação e pneus mais largos e com maior distância entre si ajudam a justificar que mais do que melhorar e aumentar a potência de um motor, é o apuramento do dinamismo do chassis e dos seus componentes directos que aumentam o prazer de condução e acabam por definir um desportivo. E com todos estes componentes, este Civic é realmente incapaz de nos induzir um bom comportamento especialmente quando encaramos estradas sinuosas.

    Segunda paragem. Altura para sair e voltar a olhar para este FK8. A Honda não brincou quando referiu que o novo Type R seria uma verdadeira montra de desenvolvimento aerodinâmico. Todos os recantos, ângulos, aberturas e apêndices têm comprovadamente uma função a cumprir no que concerne a manter este desportivo agarrado à estrada. Aliás, se olharmos de relance para este Civic, parado numa estrada de floresta, não podemos deixar de pensar que este Honda se parece remotamente com o Subaru Impreza STI hatchback. E depois temos as pequenas «hastes» no tejadilho que claramente são inspiradas no FQ-400, a versão apimentada do Mitsubishi Lancer EVO VIII. E digamos que apesar de ser um tracção frontal, numa investida rápida ao longo das curvas da estrada onde nos encontramos, este Type R conseguiria, certamente, acompanhar qualquer um desses desportivos de tracção integral.

A iluminação em led é uma mais valia para ajudar na segurança em estradas como esta.

    Apesar do aspecto agressivo, este Type R é claramente mais civilizado que o anterior. O modo Confort da suspensão, a boa habitabilidade e a bagageira de maiores dimensões apelam ao lado familiar e mais racional de quem ainda necessita dessa justificação para adquirir este Civic. Ou seja, não é o facto de precisar de um familiar que limita a aquisição deste desportivo. Claro que não é a epítome do conforto, mas tendo em conta o tamanho das jantes e os pneus (de perfil mesmo baixo) , ficámos espantados com a suavidade do rolamento. Também a insonorização do habitáculo está num plano superior, com uma boa filtração dos ruídos externos (para isso ajuda a terceira – pouco consensual – ponteira de menor diâmetro, que abafa o ruído metálico) sem claro, esquecer o som do escape que, no modo R, é digamos que agradável.

    Quando chegamos ao último local das fotografias, fomos contemplados por pequenos pingos de chuva que, tendo em conta o dia e a zona, já tardavam em cair. Fora do Civic e a olhar para o mesmo, começamos a dar valor à expressão «Primeiro estranha-se, depois entranha-se.». A frente imponente, que parece estar a ranger os dentes, causa a primeira impressão. Entradas de ar em 70% da frente, com lip em carbono, grelha fechada com otimização aerodinâmica e as ópticas full led e claro, mais uma entrada de ar no capot compôe o cenário que irá ver (por pouco tempo) nos espelhos retrovisores. Sinceramente, a sigla Type R até era dispensável daquela zona, dado que é impossível não perceber que se trata de um potente desportivo.

Ameaçador? Dócil quando bem tratado...
Vermelho no verde, momento patriota conseguido!

    Na lateral, o «drama» (no bom sentido) mantem-se. Claramente marcada pelas possantes jantes negras de 20 polegadas, esta zona do Type R é talvez a mais consensual de todas. A saída de ar do guarda-lamas, responsável pelo arrefecimento dos travões e os «alargamentos» acabam por suavizar a agressividade de todo o conjunto. Achamos engraçado o detalhe dos reflectores laterais, como que a piscar os olhos ao mercado americano.

A traseira. Bem a traseira é aquela zona que condicionou a opinião dos aficionados pelo modelo. Completamente diferente do antecessor, é nesta zona que este Civic mais marca pela sua irreverência. E tudo devido a uma terceira saída de escape (que já explicámos antes) e a uma «asa» traseira generosa mas obrigatória. Depois de muito olharmos, acabamos por nos habituar até às saídas de ar do pára-choques que ocupam grande parte da traseira e que, estas sim, pouco efeito possuem em termos aerodinâmicos.

     E o interior? Bem, com alcantara e pele por todo o lado, o aspecto confortável está garantido. Depois, as várias inserções em alumínio escovado, principalmente na zona directamente no ângulo dos olhos e ao alcance das mãos ajudam a este feeling de boa qualidade a bordo. O quadrante, que muda de cor (para vermelho) quando se pressiona o modo R é uma interessante adição neste desportivo. O volante tem uma excelente pega e a manete de velocidades, curta, precisa e invocativa dos modelos anteriores, com a sua bola em alumínio ajudam no excelente feeling ao volante deste Type R.

     Com a luz a baixar abruptamente devido ao aumento das nuvens do céu, colocamos em marcha a fase final desta sessão fotográfica: as rollings shots. Numa estrada apertada, onde passar dois carros ao mesmo tempo faz parte de um número perfeitamente ensaiado, com curvas cegas e lombas acentuadas, desenvolver esta actividade foi um momento interessante. Calmamente, lá fomos percorrendo o alcatrão, ouvindo ao fundo os pops and bangs que denunciam logo que o modo R está activado. Para petrolheads como nós, há lá melhor final de tarde?

    Aproveitamos a coincidência de fazer mais uns quilómetros junto com o Civic Type R e ora atrás, ora à frente, lá vamos apreciando este japonês. Imaginamos este desportivo no traçado exigente de Nürburgring seguido pelo Megane RS, pelo Golf GTi e, porque não, pelo Hyundai I30N e não podemos deixar de soltar um sorriso e claro, de escrever uma nota sobre isso aqui. E, quase como que se tivessemos advinhado, parece que há uma visita marcada ao Green Hell para o dono deste Type R… aguardaremos o feedback desta emocionante viagem, sabendo de antemão que será regada em altas doses de adrenalina e muita octanagem!

      Resta agradecer ao João Santos que nos confiou este trabalho fotográfico e que nos permitiu privar com um modelo que já era desejado antes de ser lançado e que não defraldou as expectativas, apesar da contovérsia estética em que esteve (e ainda está) envolvido. Caros «críticos», dirijam-se a um concessionário Honda, marquem um test-drive e preparem-se para mudar de opinião, pois vos garantimos que estamos presente um novo pedaço da futura história automóvel. Haverá melhor forma de festejar o nosso segundo aniversário?

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