Santo Graal’e

   O domingo é tradicionalmente o dia de descanso. Para a maioria das pessoas, é o dia de dormir até mais tarde, de ficar no sofá a ver televisão, a brincar com os filhos. Para outros, é dia de aproveitar para o exercício físico, controlar o stress da semana de trabalho e converte-lo em energia para correr ou andar de bicicleta. Também se pode aproveitar para visitar família, almoçar com amigos ou apenas petiscar ao fim da tarde. Depois há os petrolheads, os doidos dos automóveis que optam por usar este dia para esticar as pernas aos seus automóveis.

   Uma das zonas mais apetecíveis para dar uma «voltinha domingueira» na área de Lisboa é na zona de Sintra, com o verde da serra a contrastar com a arquitectura antiga mas colorida das vilas e zonas históricas. E claro, se falamos de história e de Sintra, temos de nos lembrar da herança automóvel desta vila, com inúmeros troços de rali que ainda hoje são lembrados em pequenas provas de perícia ou rampas.

   Antes de falarmos um pouco do automóvel desta sessão, falemos da envolvência cultural e desportiva quer do carro em si, quer do espaço escolhido para as fotos. Sintra foi palco de inúmeras passagens dos míticos carros do Grupo B e posteriormente do Grupo A, nos anos 70, 80 e 90, com um aumento vertiginoso do número de visitantes nas etapas sintrenses a justificarem alguns prémios ao Rali de Portugal. Contudo sabemos que com grande visibilidade vem grande responsabilidade e a falta de bom senso de alguns dos espectadores fez com que em 1986, ano de ouro do saudoso Grupo B, o piloto português Joaquim Santos colhesse mortalmente vários espectadores na especial da Lagoa Azul, levando ao cancelamento de toda a ronda de Sintra. Este episódio em Portugal, juntamente com a trágica morte do piloto Henri Toivonen e do seu co-piloto Sergio Cresto (no Tour de Corse), levou a que a FIA banisse os veículos do Grupo B.

   Esta sucessão de acontecimentos trágicos diminuiu a popularidade dos ralis e foi necessário vários anos e apoios por parte das diversas marcas automóveis para que os rallis voltassem a ser vistos como uma modalidade desportiva segura não só para quem a pratica como para quem a vê e segue. Sendo assim, o Grupo A acabou por ter maior visibilidade no pós-1986, com a queda dos monstros do Grupo B.

Local excepcional para a captação destas fotografias.

   Os automóveis do Grupo A são derivados dos veículos de produção, ou seja, são semelhantes aos que saem das fábricas para circularem na via pública nomeadamente em termos de potência, peso, tecnologia utilizada e no custo global de cada unidade. Além disso, para poderem ser aceites no Rali, a FIA exige que o modelo base tivesse mais de 5000 unidades produzidas por ano e 4 lugares. Basicamente, permitia um maior número de inscrições pois abria portas a muitas equipas mais pequenas e aos privados, que modificavam carros de estrada para fazerem os ralis regionais.

    Já os veículos do Grupo B, apelidados muitas vezes de aviões sem asas, tinham menores restrições tecnológicas, mais liberdade aerodinâmica e na sua engenharia. Não havia limitação no peso (mantido o mais baixo possível), na potência (em 5 anos de Grupo B, a potência média duplicou) e o número de carros necessários para a homologação era bastante menor – 200 por ano – e mais tarde, 500.

    Ainda hoje os aficionados dos Rali recordam os tempos em que o Grupo B dominava. Falam com saudades do Audi Quattro S1, do Ford RS200, do Peugeot 205 T16 e claro, dos Lancias 037 e Delta S4. Estes aficionados converteram-se em petrolheads e alguns conseguiram cumprir o seu sonho de criança em ter um carro de Rali em casa. Claro que, nos dias de hoje, é difícil (e bastante dispendioso) ter um derivado do Grupo B e por isso, torna-se óbvio que os automóveis que deram a homologação aos carros do Grupo A se tornam mais apetecíveis e acessíveis. Dos vários automóveis que fizeram história no campeonato mundial de Rali, um dos mais bem sucedidos foi o Lancia Delta HF Integrale, que ainda hoje é símbolo de potência, destreza e dinâmica irrepreensíveis.

Editor- David Režný (www.facebook.com/VideoprodukceDavidRezny)  |   Music – Ludovico Einaudi – Divenire

   Na AWP, mais do que termos sessões e artigos a automóveis cujas ligações aos seus donos são mais que meras posses, damos muita importância ao legado histórico que cada veículo tem, seja apenas para com o seu dono, seja em termos desportivos e culturais, como é este caso. Assim, e depois da intensa aula de história, retomamos o nosso passeio domingueiro por estradas de Sintra atrás do Lancia do Rúben, réplica perfeita do Delta HF produzido pela Lancia e pela Martini em 1987, conseguindo um palmarés de 46 vitórias em ralis do WRC e 6 campeonatos do mundo.

   Depois de alguns quilómetros percorridos, resolvemos parar para apreciar não só a beleza do cenário, como também a panóplia de detalhes, linhas, arestas e pormenores que caracterizam este Delta. Ao mesmo tempo em que as objectivas das máquinas fotográficas percorriam o Lancia, o Rúben ia-nos falando um pouco do carro e da sua história com ele. Como petrolhead assumido que é, os carros de ralis marcaram a sua infância e após 20 anos, sentar-se num carro semelhante ao que tinha sido o rei dos ralis quando tinha 10 anos foi o realizar de um sonho. Conta, com entusiasmo e voz trémula que foi no ano de 2000 que conseguiu tê-lo na garagem, admirá-lo diariamente e imaginar o que queria fazer dele. Vê-lo como seu foi melhor que abrir todos os presentes de natal. Ainda hoje, refere um imenso orgulho quando passa na rua e tanto crianças como adultos olham, apontam e exclamam!

    Desenganem-se se pensam que foi tudo um mar-de-rosas. Ao longo dos 16 anos de evolução, este Delta tem sido muito mimado pelo Rúben e pela sua família mas principalmente, pelos seus amigos que têm sido fundamentais na manutenção, aquisição de peças e na melhoria da experiência de condução que este Lancia proporciona. Diz, com orgulho, que este Delta é um bocadinho de todos.

   O grande objectivo do dono, visivelmente entusiasmado enquanto falava connosco, é manter o aspecto limpo e o mais original possível, dentro do estilo inconfundível do bólide que venceu tantos ralis. Pretende continuar a desfrutar do seu automóvel como até então e claro, continuar a cultivar uma relação de respeito entre o homem e a sua máquina. Refere ainda que tem muitas histórias que já viveu com o Delta, boas para contar à lareira num serão, rodeado de amigos ou mesmo de filhos e netos, um dia. O Lancia faz parte da história de vida deste aficionado pelos automóveis, que se nota a cada frase que profere sobre o seu clássico. Não é fácil ter e manter um carro com 27 anos e muitas vezes, entra-se nele e há um misto de sentimentos: tranquilidade e calma no trato para o poupar ou prego a fundo para mostrar ao mundo o que ainda vale? Bem, depois de andarmos atrás deste Delta pelas estradas de Sintra, percebemos  que o Rúben é mais adepto da segunda hipótese. E é fácil de perceber porquê, dado que este Lancia Delta está pronto para as curvas e salta de uma para outra com uma facilidade e rapidez que se torna difícil de acompanhar por muitos carros modernos.

    Tal como outros clássicos e projectos já abordados na AWP, existe sempre um forte componente social em volta dos automóveis. E este Lancia Delta é uma espécie de íman, permitindo ao Rúben conhecer imensas pessoas que ao longo dos anos se tornam em amigos e que por vezes o ajudam a resolver problemas que surgem no carro pois, como  em muitos outros carros mais antigos, é díficil arranjar peças, o que se transforma em mais uma desculpa para mais um convívio em torno da máquina.

Um perfil de vencedor.

    Durante a sessão fotográfica, escutamos o Rúben falar das ideias que ainda tem para o Delta, para o tornar totalmente fiel ao carro de Rali, nomeadamente meter a rampa de faróis auxiliares na frente, as tampas para arrefecimento dos travões nas jantes da frente, o novo escape de dupla saída, entre outros ajustes. No entanto, de entre o interior todo forrado de novo, as baquets ajustadas, os pequenos ajustes e melhorias efectuadas pelo dono, há algo no interior que nos chama a atenção: uma assinatura no tablier. Entusiasmado, o Rúben conta-nos que foi um dos melhores momentos que teve com o Delta, quando o finlandês voador Marku Allen se sentou no banco do pendura e autografou o porta-luvas e o capacete, que guarda religiosamente em casa e que apenas o acompanha em eventos mais marcantes.

É em alturas como esta que gostávamos que as fotografias tivessem «som».

   Já com o sol bem alto, saímos da barragem perto da Lagoa Azul e descemos até Sintra, acompanhados de uma excelente banda sonora. Se fechássemos os olhos, parecíamos estar numa etapa do Rali de Portugal em plena Serra de Sintra pois até o cheiro era semelhante, o aroma a gasolina queimada por um motor cheio de histórias mas também cheio de vitalidade de força. Já em Sintra, despedimo-nos do Rúben com um até já, depois de uma sessão que fica na memória não só pela localização escolhida, como pelo automóvel que nela figura. Resta-nos apenas fazer uma coisa: ligar a consola e jogar Sega Rally Championship.

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