RS Champ

    Duas letras bastam. Sim, isto podia ser o inicio de muitos artigos e provavelmente a dica já foi usada anteriormente mas realmente é difícil não o fazer. É que bastam mesmo duas letras (e às vezes um número) para mudar tudo o que pensamos de um modelo mas vamos então por partes, dado que é preciso despir o automóvel que vos trazemos neste artigo. A Renault sempre soube fazer desportivos compactos e não é em vão que continuam a ser os preferidos para os trackdays e para os rally mais amadores. O chassis equilibrado, a direcção precisa (mesmo depois de vários anos de uso e abuso) e os motores sempre disponíveis para estampar um sorriso na cara de quem os conduz são receita bem condimentada para o sucesso.

    Depois de vários anos no activo, a sigla RS conheceu, em 2010, um novo membro da família, que veio substituir no segmento o mal amado (esteticamente falando) mas bem sucedido Megane II, com uma estética mais consensual, mais espaço interior, maior bagageira e um preço de venda ao público ao nível do anterior modelo (obviamente com alguns ajustes, para cima). O Megane RS surgiu com 250 cavalos, exprimidos de um 4 cilindros com 2000cc de cilindrada e um turbo suficiente para levar este desportivo de tracção dos 0 km/h aos 100 km/h em apenas 6,1 segundos. Juntamente com tudo isto, os travões Brembo, as cavas de rodas mais pronunciadas, um lip aerodinâmico na frente, as generosas jantes de 18 polegadas (19 polegadas opcionais) e um escape de saída central completam o fato de competição deste Megane RS.

As jantes aqui já alteradas mantêm o estilo agressivo e desportivo.

    Mas a Renault não sabe estar quieta e como tal, surgiram no mercado versões melhoradas do já excelente RS, com upgrades mecânicos, aerodinâmicos e estéticos que tornaram o bom no ótimo. Além da versão Cup, que surgiu poucos meses depois, com ajustes no diferencial, suspensão e acerto no peso, uma das versões mais desejadas deste modelo é o Trophy, que aqui vos trazemos. Sim, na All Wheels Photography a paixão por estes automóveis é grande e não descansamos enquanto não conseguimos fazer a review de um modelo tão carismático e… tão bom!

    O Megane RS Trophy surge em 2011 para apimentar o mercado de desportivos compactos e a Renault deve ter usado Carolina Reaper (a pimenta mais potente do mundo, originária de uma cultura no estado da Carolina do Sul, nos Estados Unidos da América) pois acertaram em cheio na dose. O risco era grande pois todos nós, petrolheads assumidos, sabemos que quando temos um pacote perfeitamente equilibrado entre potência, comportamento dinâmico e peso, mexer pode estragar, mas realmente, neste caso específico, o veneno no motor e os ajustes no restante pacote foram um bálsamo para um dos melhores Renaults de sempre (dinamicamente falando).

   Apenas 500 modelos comercializados deste modelo, pelo que o factor raridade se tornou causa e justificação para que a Renault cobrasse mais 2000 € perante a versão base. Mas o facto de ter sido durante bastante tempo o automóvel de tracção dianteira mais rápido no mais exigente circuito do mundo – Nürburgring, claro – acabam por atenuar e distrair o comprador dessa diferença de preço. Para quem não se recorda, este pequeno desportivo fez os 22 km da volta no Green Hell em 8:07.97 minutos, baixando o anterior recorde em praticamente 10 segundos (ficou em casa o recorde, dado que o anterior pertencia ao quase-competição R26.R).

    E então, o Megane RS Trophy é assim tão diferente do RS normal? Sim, e não. Confusos? Vamos tratar de esclarecer. O Trophy é uma versão melhorada e exclusiva do já fantástico RS que tem no chassis e na forma como o motor entrega a potência os seus maiores trunfos. O “sim” justifica-se então no upgrade de mecânica, com o mesmo bloco 2.0 a debitar agora 265 cavalos e uns mais simpáticos 481 nm de binário, que surgem através de uma nova e maior admissão de ar e um ajuste na pressão máxima do turbo – torna-se mais rápido 0,1 segundos dos 0-100 km/h… A Renault não alterou nada no chassis o que se veio a revelar uma escolha acertada pois em equipa que se ganha, não se mexe. E é aqui que entra o “não” a que nos referimos antes. Pois não é assim tão diferente do RS base, dado que o restante do Megane se mantém. Há ajustes estéticos como o desenho das jantes, a escolha dos pneus (os Potenza RE050A substituem os Michelin ou Continental – consoante os mercados) e cores específicas.

    Não se iludam com o que acabaram de ler, o Trophy RS é uma peça de colecção mas que deve ser usada e abusada pelas estradas de serra ou nos circuitos de norte a sul do nosso país. A diferença de valores é mais que justificativo e o facto de ser uma edição limitada só nos dá mais força a esta nossa conclusão. Haja modelos disponíveis para os comprar, dado que houve uma imensa procura deste modelo e como tal, é quase impossível deitar as mãos a um destes, no mercado de usados.

   Agora vamos lá ao que interessa: o nosso Megane RS Trophy. Na cor noir étoilé com acertos a vermelho (específicos da versão Trophy), é um modelo que não passa despercebido por onde passa. Claro que ajuda à baixa discrição na via pública o sonoro escape KTR, que torna ainda mais grave o rosnar deste desportivo francês. Há que frisar que o escape alterado, não foi só um arranjo estético ou um ajuste da banda sonora deste RS, também ajuda a conseguir os  espantosos 334 cavalos que este Megane debita agora mas… o segredo é a alma do negocio, e como tal, as restantes modificações para chegar a esse valor ficam debaixo do capot.

    A dinâmica deste Megane foi melhorada com ajustes na suspensão e uma melhor travagem (sim, como anda mais também tem de travar melhor) com uns travões PFC e pastilhas CI, que mordem os discos ao ponto de os deixar incandescentes depois de uma descida na serra. Para melhorar a forma como este RS coloca a potência no chão, as mais pesadas jantes de origem foram substituídas por umas super-leves OZ Racing Allegerita HLT em cor titânio, conferindo níveis de aderência ímpares a este Renault, ajudando a este fenómeno a suspensão rebaixada (ainda que ligeiramente) com molas Eibach Sport Kit.

    No interior não houve modificações mas verdade seja dita, não são necessárias. Os cintos amarelos tão característicos dos modelos desportivos da marca francesa contrastam na perfeição com a pele preta das excelentes baquets Recaro e com o interior sóbrio mas desportivo. O quadrante específico desta versão com o conta-rotações em cinzento (ao invés do amarelo das versões-base do RS) juntamente com o volante de três braços e a famosa risca racing focam o condutor naquilo que melhor se faz neste carro: conduzi-lo bem e rapidamente.

O som perto das 5000 rpms torna-se altamente viciante.

    A condução deste modelo em específico é bem diferente (para melhor) que a versão original pois neste caso, notam-se bem os cavalos extra. É que no Trophy original, o incremento de potência é apenas sentido se tivermos os dois modelos (o RS e o Trophy) em casa e pudermos sair de um e entrar no outro. No papel a diferença de 15 cavalos parece significativa, mas na realidade, essa diferença dilui-se na emoção de conduzir um carro de tracção dianteira tão competente como este. Contudo, dado que este tem quase mais 100 cavalos que o RS de base, meus amigos, a diferença é mais que muita. E a prova de que o chassis da Renault é mais que competente está aqui, pois mesmo com tal aumento da força do motor, o Trophy deste artigo continua a conseguir descrever curvas com enorme exactidão, sem grandes dramas e a dar muita dor de cabeça a outros desportivos, até de segmentos superiores, nos trackdays onde é presença assídua.

Na traseira, o escape central "verdadeiro" acentua uma das principais características deste Megane: desportividade!

    Se há prova da competência e eficácia deste automóvel, é a história que envolve a aquisição deste modelo. É que este Megane veio substituir um Mitsubishi Lancer EVO 6, um exemplar quase perfeito no que diz respeito à dinâmica e à capacidade de descrever curvas rapidamente e de devorar rectas. Depois de um dia no Passion Days by Renault e de uns test-drives ao Megane RS Trophy que a marca do losango colocou a jeito no Estoril, a substituição tornou-se clara e apenas uma questão de meses.

    Para terminar este artigo, deixamos umas fotos em modo extra deste Trophy com um Cup (versão intermédia, se assim lhe quisermos chamar) que apareceu para abrilhantar a nossa sessão fotográfica que, como devem calcular, teve lugar junto ao Museu da Electricidade em Belém. A AWP conseguiu, naturalmente, ter um dos melhores desportivos de tracção frontal de sempre no seu portfolio. E honestamente, não poderíamos ter escolhido melhor exemplar. Duas letras, três palavras: equilíbrio, eficácia, diversão!

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