Pérola do Alentejo

    Agosto no Alentejo só significa uma coisa: calor! E há algo que se associa a isso, nesta zona do país, que é estradas desertas. Quilómetros e quilómetros de alcatrão rachado pelas diferenças de temperaturas durante um só dia, bafejado por aquela brisa constante que engana ao fazer-nos pensar que irá refrescar um pouco. Um quadro de cores quentes, onde o laranja da seara se mistura com o verde do «chaparro» e o branco das casas acabadas de caiar. É este o cenário de uma sessão fotográfica à muito reservada, a um automóvel com história e com carisma.

    A presença da All Wheels Photography em alguns dos trackdays no Autódromo do Estoril não passou despercebida e temos recebido contactos de pilotos e curiosos, presentes nestes dias de velocidade no circuito lisboeta, para fotografar alguns dos seus automóveis. Este artigo visa um deles, um clássico que além do restauro obrigatório, foi melhorado e modificado no sentido de o tornar uma verdadeira máquina de competição que envergonha muitos veículos mais recentes. Falamos do BMW E21 323i, que das terras quentes do Alentejo, trás uma excelente dose de charme, beleza e classe ao traçado do Estoril.

    O BMW E21 surge na família da marca bávara nos anos 70, como o primeiro dos modelos da até hoje bem sucedida linhagem Serie 3. De linhas rectas e simples, o E21 esteve no mercado durante quase uma década, até ser substituído pelo E30, já na década de 80 e tornou-se uma das formas mais acessíveis de conduzir um BMW. Um familiar mais compacto que os modelos até então comercializados enquanto berlinas, conheceu várias motorizações a gasolina, desde o 316 até ao 323i que aqui vos trazemos.

    A BMW sempre mostrou ao mundo que o seu plano de acção visava modelos familiares de pretensões desportivas com prestações acima da média e que pudessem rivalizar com coupés e modelos com dinâmicas apuradas, quer da própria BMW, como de outras marcas. O E21 apesar das três portas, tem bastante espaço interior e uma bagageira volumosa, o que o colocava na altura do lançamento, em 1975, bem posicionado nas listas de preferências de jovens famílias. Além da versão fechada de 3 portas, houve ainda uma edição Baur, descapotável, que pelo seu preço mais elevado acabou por não conhecer grande sucesso.

    O desenho do E21 tem traços genéricos que ainda hoje se conseguem observar nos vários modelos da marca alemã, sendo o mais tradicional e provavelmente mais conhecido as grelhas frontais, também conhecidos por «rins». Estes ícones do design da BMW tornam-se, neste modelo, um aspecto marcante da frente do E21, surgindo na grelha do radiador. As duas luzes redondas, nas extremidades da grelha, evidenciam a inspiração dos designers da marca no contemporâneo E12, nome de código dos modelos da Serie 5, maiores e mais luxuosos. Ainda na frente deste Serie 3, o pára-choques cromado volumoso combina luxo, classe e desportividade e faz a ligação do design recto da lateral com detalhes mais curvos da frente, como as referidas luzes e até os «rins» da grelha.

    Na lateral, os engenheiros da BMW mantiveram o estilo usado até então, com uma frente mais baixa que a traseira e painéis quadrados e de linhas simples. A zona traseira, com um pára-choques subido (evidente no perfil) é uma das marcas de design que marcaram os vários modelos até aos anos 90. Outra característica já visível no E21 e que perdurou até aos dias de hoje é o chamado Hofmeister Kink, uma curvatura inversa no pilar C que atribuí dinamismo e um corte nas linhas angulosas daquela secção do BMW.

Descansar à sombra para resfriar os cavalos tornou-se obrigatório neste dia de extremo calor.

     O interior. O E21 apesar de ser um coupe de 2 portas, tinha uma excelente quota de habitabilidade, com espaço suficiente para as pernas, ombros e cabeça. Transporta comodamente 4 adultos e as suas bagagens, com um conforto acima da média para um modelo familiar. Uma novidade que surgiu nesta versão do Série 3 e que perdurou noutras séries e modelos foi a angulação do tablier para o condutor, focando-o no prazer de condução e na maior atenção aos aspectos que envolvem a mesma. Com materiais mais suaves e de melhor qualidade, o interior do E21 é um excelente local para se estar, tornando-se fácil transpôr quilómetros.

     Já falamos do excelente andamento, de como bem soa e anda, portanto torna-se obrigatório falar também da experiência a bordo. O interior foi também modificado, sendo o mais evidente a remoção dos bancos traseiros e a colocação da baquets Recaro Profi-SPG em fibra com cintos de três pontos. Entre as duas baquets, salta à vista a manete de velocidades em carbono da D1 spec e no tablier, o volante de três braços da OMP. A redução de peso foi levada a sério, com a remoção dos cinzeiros, palas de sol e pequenos acessórios de conforto. Quando entramos neste E21 (não é tarefa fácil para quem for bem constituído ou com dificuldades em se dobrar) e nos sentamos nas Recaro, ficamos encaixados de uma maneira impressionante. Não oscilamos nem nas curvas mais apertadas, e os cintos de três pontos que já referimos dão-nos uma segurança ímpar quando andamos depressa e faz-nos esquecer que estamos a andar bem rápido num automóvel mais velho que nós! O rouco dos escapes abafa a nossa própria voz e o seco da suspensão faz-nos concentrar na condução e no percurso á nossa frente, pois a taragem das molas juntamente com todas as outras modificações tornam este E21 algo saltitão nas estradas mais sinuosas, mas nunca compromete a eficácia e dinâmica do 323i.

Memórias num automóvel memorável.

    A dinâmica do E21 já era, na altura, uma referência. Um chassis equilibrado associado a uma suspensão do tipo MacPherson na frente e semi-independente atrás e claro, à tracção traseira, proporcionava prazer de condução mesmo com o motor mais «fraco» da gama, o 316 de quatro cilindros em linha e 89 cavalos (motor BMW M10). Nos primeiros anos de comercialização, o E21 só conheceu três versões de motorização, o 316 já referido, um 318 de 98 cavalos e um mais potente 320 com 123 cavalos. Mais tarde, em 1977 no Salão Automóvel de Frankfurt a BMW anuncia um novo motor de 6 cilindros de código M20, aparecendo os E21 320i e 323i.

     E foquemo-nos no 323i, dado que é o motor que equipa o E21 do nosso artigo. Além da potência aumentada, contando o 323i com 141 cavalos e uma velocidade máxima de 200 km/h, o novo modelo do E21 contava com travões melhorados e de disco nas quatro rodas, suspensão mais rígida e a possibilidade de ser instalado um auto-blocante e direcção assistida.

     Com uma excelente história no automobilismo de competição, o E21 do Bruno que aqui vos trazemos presta homenagem aos anos de glória deste modelo nas competições de Turismo e Resistência dos anos 70 e 80. Claro que estando nós na secção de Projectos do nosso site, teremos de falar das modificações deste modelo. Como já referimos, o E21 que vos trazemos tem o motor mais potente, o 2.3l de 6 cilindros e é usado (e bem) em vários trackdays em Portugal. Apesar destas investidas em pista, o motor deste E21 mantém-se de origem, tendo sido apenas mantido e revisionado com excelentes produtos e cuidado.

     O excelente desempenho em pista é assegurado por um conjunto de modificações no campo da redução de peso e otimização da dinâmica. A tampa da mala é em fibra, com necessidade de fechos interiores e exteriores pela leveza da mesma, de forma a não abrir em andamento; ainda na bagageira, foi removido o pneu sobresselente, forro e macaco, a bateria foi colocada no centro da mesma para um melhor equilíbrio de pesos por eixo. A redução de peso continua nos espelhos, recorrendo-se ao carbono nestas peças e na supressão da antena e de todo o seu sistema eléctrico.

     Já que falamos de dinâmica, é importante mencionar as alterações neste campo. A suspensão foi alterada, contando este E21 com coilovers desenvolvidos unicamente para ele, com regulação da altura, camber plates e molas com taragem adaptada e alterada após pesagem do mesmo, juntamente com cinoblocos Metric de competição na frente . Foram colocadas barras de anti-aproximação em ambos os eixos, para maior rigidez e firmeza que resultam numa capacidade de curva bastante melhorada em comparação com o modelo stock. A travagem, apesar de ser bastante eficaz no modelo original, foi recondicionada e melhorada e foram ainda colocados tubos em malha de aço da Goodridge, óleo Dot 5.1 e condutas de arrefecimento para os discos frontais, essenciais na condução mais agressiva em pista. E é certo, os resultados melhoram com estes pequenos ajustes e melhorias.

          Este E21 contou com alguns sets rolantes bastante únicos. Sempre com objetivo da melhor dinâmica possível, sem descurar a estética do conjunto, o Bruno optou agora por umas bonitas jantes Lenso de 15 polegadas com 8 de largura revestidas por Toyo R888 195/50, com uma aderência ímpar (como pudémos constatar) nos quilómetros que fizémos até ao local da sessão fotográfica. E não é só de eficácia na estrada e estética que «vive» este E21. O som que emana também é interessante e único, devido ao escape em inox (por agora incompleto) que à medida que aquece com o andamento mais incisivo, torna o cantar dos 6 cilindros mais grave, rouca e profunda.

    Durante o caminho até ao local onde tirámos as fotografias, fomos falando com o Bruno. Mas mesmo sem ele falar, a forma como agarra no volante, como utiliza os pedais da Sparco com a técnica heal-and-toe enquanto sorri diz-nos logo que efectivamente, possuir, melhorar e conduzir um clássico é aquilo que o faz feliz, principalmente se tiver tracção traseira e se for BMW. A maioria das alterações e manutenções são feitas na sua própria garagem, se bem que teve ajuda, principalmente na suspensão, do Tony (Cartec).

     A manhã já terminara e era hora de ir almoçar, e estando nós perto de Vendas Novas, tornava-se obrigatório a bela da bifana à moda da terra. Durante o almoço, conversámos com o Bruno e percebemos que existe um certo orgulho e alegria em preparar um automóvel e ver que aquilo que realizámos é apreciado por terceiros e eficaz em pista. No Estoril, tem feito excelentes tempos e dado provas de uma tremenda fiabilidade, eficácia e claro, divertimento! Despedimo-nos do Bruno na sua garagem onde o E21 já repousava bem protegido do calor da tarde e claro, deixamos um até já, pois em breve o veremos novamente no seu habitat natural.

    Por fim, e em jeito de resumo também do que aqui fazemos na All Wheels Photography, mostramos um vídeo da autoria de Pedro Ramos Santos que tão bem retrata a ligação do Bruno ao seu E21. Vale a pena ver e rever!

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