Laranja Mecânica

      Este artigo de hoje vira a All Wheels Photography novamente para a história, para o «romance». Romance entre um automóvel e o seu dono com todos os percalços e pontos altos tão característicos destas relações, principalmente quando se trata de um restauro. Apesar de serem poucas estas histórias, estas são talvez das mais interessantes de partilhar convosco pois mais do que as fotografias que tentamos que transmitam o carinho e paixão que cada dono coloca no seu veículo, é a importância das palavras e o orgulho sentido por quem constrói a sua forma de deslocação e o transforma de um simples veículo num ícone e membro da família. Gostamos disso e é isso que nos distingue dos demais e acreditamos também que é por esta razão que quem nos segue o faz. Desde já o nosso obrigado.

   Mas vamos à laranja mecânica (de certeza que já o apelidaram desta forma desde que começaram a ver as fotografias). Trata-se de um Opel Ascona A também chamado de 1604 em Portugal devido à semelhança do seu nome original com uma palavra menos própria proferida por cá mas não precisamos de entrar em detalhes sobre isto. Adiante, o Ascona é um modelo do segmento médio que surgiu por necessidade que a Opel tinha de se fazer valer num sector cada vez mais importante. Os anos 70 e 80 foram importantes para o comércio automóvel e a opção dos particulares por modelos de características familiares com conforto e fiabilidade era cada vez maior. A marca de Rüsselsheim não perdeu o comboio e lançou então o Ascona que conheceu versões a gasóleo e gasolina bem como modelos mais desportivos que depois foram utilizados em competições.

A irreverência da cor facilita ainda mais a sessão fotográfica.

     Com o trabalho de casa feito, fomos ao encontro deste Opel. O ponto de encontro com o João Gil foi Alcochete à beira-rio plantado e aproveitámos o bom tempo e a beleza natural da cidade para a sessão fotográfica que debaixo de um bonito sol, correu muito bem. A cor laranja deste clássico que tanta crítica faz surgir (boas e menos boas) ressalta com a luz e dá ainda mais charme e presença ao 1604. Esta primeira geração de um modelo comercializado entre 1970 e 1989 conheceu algum sucesso em Portugal mas apesar disso hoje em dia encontrar um em bom estado é bastante difícil. Ainda assim eles existem e felizmente confiam no nosso trabalho para se exporem às massas sociais (e não só).

O interior está muito virado para a condução desportiva e é isso que faz sorrir o João.

    Falámos da história no início do artigo. Pode parecer um pouco semelhante à de outras pessoas e na volta até quem está a ler este artigo se identifique com algo parecido. Normalmente o nosso espírito petrolhead começa quando somos crianças e impulsionado pela presença de automóveis ou motas em casa ou então de alguém que nos é chegado e que possuí essas peças e que nos «põe» o bichinho. Neste caso específico, até nem foi bem assim dado que faltou aquele ímpeto em casa para o gosto se desenvolver. Conta-nos o João Gil que desde muito novo que começou a adorar carros, de um modo geral e em especial os rallys nomeadamente o infame Grupo B. Em contrapartida, o seu pai sempre foi muito «razoável» no sector dos carros, preferindo sempre carros económicos, confortáveis e fiáveis, em suma, sensaborões! Pelo que, quando comecei a trabalhar o objectivo era virar essa página de carros aborrecidos e tentar comprar um carro de rally.

Habitualmente vemos este 1604s com faróis auxiliares nos eventos do clube Opel Classic Racers mas para a sessão fotográfica da AWP, veio mais «limpo».
Laranja e azul, duas cores que simbolizam o verão.

   Continuávamos as fotos e íamos absorvendo a história sobre este 1604. Perguntamos então como ficou a situação do carro de rally e o João responde que isso acabou por acontecer com a compra de um Subaru Impreza Prodrive de 305cv. Mais tarde nasceu o seu primeiro filho e o Subaru não era, de todo, um carro familiar. Com obrigações familiares e sem capacidade ou apoio para manter a paixão automobilística sobre rodas, viu-se obrigado a trocar o Subaru por um BMW (que ainda hoje é o seu carro de dia-a-dia) que embora seja um carro económico, confortável e prático para a família, ainda permite algumas brincadeiras (viva a tração traseira). Com esse «bichinho» dos rallys ainda a roer, decidiu arriscar na aquisição de um clássico e partir para um restauro que fosse simultaneamente viável do ponto de vista financeiro e que fizesse parte da história do desporto automóvel (preferencialmente rally).

    A primeira ideia era um Ford Escort, mas face aos preços ridiculamente inflacionados, tornou-se inviável mesmo antes da aquisição. Na procura por um carro que cumprisse os requisitos, surgiu o Opel Ascona A (1604). Já em fase avançada no restauro, o 1604 chegou até ao João já tratado de chapa, já pintado e completamente desmontado, como um Lego, mas em tamanho gigante. Era a oportunidade perfeita para além do gosto pelos aitomóveis, desenvolver também o conhecimento sobre mecânica e electrónica. Hoje orgulha-se de tudo ter passado pelas suas mãos desde mecânica, travagem, um segundo trabalho de chapa e pintura, electricidade (a minha parte preferida!!) e interiores. Basicamente, tudo o que vemos neste Ascona em determinado momento passaram pelas mãos do João.

    Foram 5 anos de restauro, com muitos altos e baixos, alguns momentos em que a vontade maior era desistir, mas cuja satisfação de chegar ao resultado final suplantou todas as contrariedades (e em bom tempo o fez, dado o resultado final). Apesar disso, o João Gil Reconhece que não está perfeito mas também reconhece que não fazia sentido ficar perfeito pois afinal de contas, cada imperfeição na chapa, cada ruído, cada “defeito” tem uma história, história essa que já vai longa, desde Abril de 1974.

     Um dos sectores que menos consenso reúne é a cor mas confessa-nos o João Gil que o não o faça. É, se calhar, aquilo que mais gosta no carro, o ser diferente e não ser adorado por todos. Cada crítica negativa enche-o de orgulho e encarna bem o espírito do “built, not bought”. E se pusesses farias igual? – perguntamos nós, já a saber a resposta que iríamos receber – obviamente que sim, responde-nos o João enquanto entrava no seu 1604 para se ir embora. Em breve voltaremos a ver esta laranja mecânica num encontro do grupo Opel Classic Racers onde irá mostrar a sua beleza automóvel e dotes desportivos.

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