Ford A

    Estrelas de cinema. Sim, foi como nos sentimos na tarde que se tornou especial para nós, quando fomos fotografar um verdadeiro marco histórico da evolução automóvel. E porque é que nos sentimos assim? Virámos mais cabeças e recebemos mais acenos de aprovação do que quando fomos fotografar o Ferrari 458, no ano passado. Um supercarro, trocado por um simples veículo, com um motor de 40 cavalos e com 86 anos, é algo que nos surpreendeu mas que facilmente compreendemos. Estamos a bordo de um Ford A, acabado de recuperar, em que a atenção ao detalhe foi cumprido a rigor, transformando este outrora pedaço de chapa enferrujada e com falta de carinho numa relíquia de museu. Com um automóvel destes, precisávamos de uma localização igualmente especial e dado que o Ford A foi recuperado em Setúbal, nada como utilizar uma das zonas históricas daquele concelho.

   Evitámos claro, a habitual Serra da Arrábida e o Forte de S. Filipe, para nos focarmos num local menos conhecido mas igualmente importante de Setúbal, o Moinho de Maré da Mourisca, um dos quatro do estuário do Sado, foi edificado no século XVII na zona de sapal e salinas na zona do Faralhão e servia para a moagem das farinhas, usando as marés como combustível. Hoje é local de turismo cultural e fonte de conhecimento e vigilância de algumas espécies animais e vegetais do estuário do Sado. Com base nesta contextualização histórica, achámos pertinente utilizar este Moinho como cenário para esta sessão, especialmente pelos fundos que a zona concede e pela excelente posição em função do sol, que se mostrou perfeita para fotografar este Model A.

De qualquer ângulo, este Ford A é sublime nos detalhes.

    Ora com história começamos e com história continuamos. Se o local é idílico, o automóvel também e a sua história merece ser conhecida. Desde sempre que se atribuíu a Henry Ford a revolução da industrialização automóvel com a primeira linha de montagem a ser criada para a construção de um automóvel, com o Ford Model T (o primeiro veículo de série do mundo). Ford nasceu em 1863 e desde cedo que se interessou pela mecânica e pela indústria quando, ainda em jovem, desmontava relógios e arranjava-os para os amigos. Mais tarde, deixou a vida de campo e rumou a Detroit onde foi crescendo a pulso (com um retorno à sua cidade natal, onde casou e teve um filho, Edsel), tornando-se especialista na área da indústria graças ao cargo de engenheiro chefe na Edison Iluminating Company. Anos mais tarde, numa reunião entre Henry Ford e Thomas Edison, Ford foi encorajado pelo inventor Edison (responsável, entre outros, pela lâmpada incandescente) em melhorar o estudo inicial de uma «carroça» sem cavalos, um quadriciclo que mais tarde daria origem ao Ford Model T, já sob a tutela da Ford Model Company (fundada em 1903).

   Com a modernização das linhas de montagem operada por Henry Ford, a marca conseguia produzir mais e melhores automóveis, no mesmo tempo. A este acontecimento, juntou-se a utilização de trabalhadores com formação e pagos com salário, tudo uma novidade no campo da insústria. Com tudo isto somado, Henry Ford conseguia baixar os custos de produção e consequentemente, os custos do veículo final permitindo a muitos subsitituir a carroça com cavalos por um veículo motorizado com comodidades e maior facilidade de utilização. Devido a todas estas inovações, em 1918, metade dos carros nos Estados Unidos da América eram Ford Model T.

   Esteticamente semelhante ao Model T, e produzido da mesma forma que este, surge em 1927 o sucessor do T (que esteve em produção durante 18 anos!), chamado Model A ou apenas A. Este novo Model A (no início do século, existiu um primeiro Model A – o primeiro carro produzido pela Ford, ainda sem a famosa linha de montagem) foi designado como new (novo) em 1928 e vendido como uma modernização do T. Durante quatro anos, a Ford produziu e vendeu 4 858 644 model A (contando com todas as carroçarias e cores), ou seja, mais de um milhão de automóveis produzidos por ano, o que mostra o poder e vantagem da utilização de linhas de montagem na indústria.

Os quatro cilindros ostentosos do Ford A.

    O model A foi vendido em várias carroçarias, desde o roadster ao Town Car, num total de mais de 20 combinações, variando o número de lugares, o tejadilho, a distância entre eixos ou as características da carroçaria, sendo por vezes alguns dos modelos divididos em linha simples (standard) ou luxo (deluxe). Existiram ainda versões comerciais, taxis e até um modelo limitado denominado Special Coupe. O comum entre todos estes era o motor de 4 cilindros em linha capaz de debitar 40 cavalos e levar o A até aos 105 km/h (não testámos esta parte), mas também não necessitámos, dado que andar num clássico destes é aproveitar a viagem e desfrutar da mesma, devagar, calmamente.

    Este Ford foi o primeiro automóvel a contar com controlos básicos tal como ainda hoje é utilizado nos veículos actuais, com três pedais e uma manete de velocidades. Outra curiosidade neste modelo da Ford era o depósito da gasolina, que se situa entre o motor e o resguardo (separação do motor e do habitáculo) e já conta com um manómetro que informa o condutor da quantidade de combustível no depósito; também foi no model A que se utilizou pela primeira vez vidro no pára-brisas, bem como um sistema de recolha do ar quente do motor para o habitáculo, disponível como opção nos locais mais frios. E por falar em temperatura, na traseira do emblema da frente e no topo do radiador, é visível de dentro do habitáculo o termómetro da água do radiador, para evitar sobreaquecimentos.

      Mas antes deste fantástico aspecto, como era o nosso Ford A? Deixamos as fotos tiradas na oficina onde foi feita a recuperação deste automóvel falarem por nós.

     O que temos então à nossa frente para este artigo? Um roadster deluxe de dois lugares com o terceiro assento opcional na traseira, tão típico nestes veículos das décadas de 20 e 30. Com o longo capot de abertura lateral em duas partes, ladeado por grandes guarda-lamas onde, do lado do condutor, salta à vista a roda sobresselente, este design perdurou durante anos, não só nos modelos da Ford como em outras marcas. Igualmente interessante é o uso, ainda nos dias de hoje, de veículos como o model T e model A como base para os famosos hot-rods (modelos clássicos, com pelo menos 50 anos, cujos motores são trocados por grandes blocos V8 [usualmente] e em que a personalização ganha grandes proporções). Os modelos mais escolhidos pelas empresas e até por privados são os roadsters (descapotáveis de dois lugares) como este model A, por serem mais leves, mais baratos de adquirir e modificar. Nos Estados Unidos, 3 em cada 5 destes modelos ainda a circular são hot-rods ou derivados, com alterações mecânicas, estéticas e dinâmicas. A modificação destes modelos (model T e model A) surge no início da década de 30, com o surgimento de corridas em lagos secos nos Estados Unidos, nomeadamente a nordeste de Los Angeles, sendo comum a remoção de tejadilhos, pára-brisas, capots e guarda-lamas com o intuito de perder peso e abrir caminho a motores maiores e mais potentes.

    Por cá, estes modelos são muito raros. Na Europa a comercialização dos Ford model A foi penalizado por taxas elevadas, o que em alguns mercados fez com que os automóveis vissem os seus motores serem encurtados na potência e na capacidade. A maioria destes modelos que ainda circulam nas estradas europeias são importações dos Estados Unidos, onde ainda hoje se comercializam model T e model A. O «nosso» modelo A foi totalmente restaurado e adaptado aos padrões de circulação atuais, com novos suportes de matrícula, piscas frontais e o reposicionamento do apoio de pé para se poder subir para o lugar traseiro, tendo este model A agora dois desses apoios, um de cada lado. Toda a carroçaria foi descascada até ao metal, de forma a levar nova base primária, um bonito azul metalizado e um acabamento brilhante de excelência. Os guarda-lamas pretos atribuem um contraste interessante e fazem este Ford A parecer mais largo e baixo.

    No interior também houve imensas melhorias e alterações, sendo a mais evidente a inversão do tablier e claro, dos restantes componentes. Este A era originalmente de volante à direita, tendo sido necessária a troca da coluna de direcção, apoios mecânicos e toda a estrutura de controlo (acelerador, travão, etc) da direita para a esquerda. Aproveitando que se estava a mexer, todo o interior foi restofado num elegante tom bege claro, com o centro do tablier a ser terminado na mesma cor exterior. Também o volante foi alvo de restauro, bem como as dobradiças da capota dobrável e os apoios dos pés. No exterior, todos os cromados foram melhorados e polidos, mas mantendo alguma da patine tão características destes modelos. Nem sequer a base/grelha traseira de transporte de bagagens ficou esquecida, ficando apenas a faltar a mala de pele que, no dia da sessão, se encontrava ainda a caminho da oficina onde este Ford A foi recuperado.

     Não podemos ficar indiferentes a um automóvel destes. A história daquilo a que hoje na All Wheels Photography dedicamos o nosso tempo a fotografar nasceu no irmão mais velho deste Ford A e não podíamos deixar passar a oportunidade de fotografar algo tão importante quanto charmoso. Não é só o automóvel em si, é toda a envolvência que existe na recuperação e restauro deste Ford A pois já por várias vezes conhecemos carros restaurados, mas nunca pudémos conhecer o antes e o depois como neste caso. Uma tarde memorável num veículo que promove sorrisos rasgados em quem o vê passar na rua e uma grande satisfação a quem o viu transformar-se de sapo em cisne. Contamos em breve mostrar-vos mais exemplos como este, de grande importância histórica e de dedicação ímpar.

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