Dapper Connection

    O universo automóvel está carregado de bons exemplos de sucesso. Por razões várias, há veículos que marcam gerações, anos, décadas, consoante o motivo pelo qual se notabilizaram. Sejam por motores fiáveis, por recordes de economia de consumo, por números de vendas ou mesmo por edições especiais, há diversas formas de um automóvel se tornar um objecto de culto e sucesso. E claro, além do carro em si, toda a marca e estrutura que o desenvolveu ganha créditos, relacionado com esse sucesso, e a tarefa de criar depois uma nova versão sem descurar os motivos que levaram ao enobrecimento de tal automóvel torna-se bastante complicada.

    Um dos melhores exemplos a nível global, do que acabámos de falar é o Golf GTi. As versões desportivas de pequenos utilitários têm ganho cada vez mais sucesso não só para jovens condutores como até de pessoas mais experientes, dado que obtém uma grande satisfação em conduzir um carro com um preço mais baixo que muitos desportivos. Esse factor tem-se notado em cada vez mais marcas, mas a Volkswagen sabe bem «espremer» esse sumo, dado que foi das primeiras a criar um sub-mundo dentro dos hatchbacks com o GTi. Na All Wheels Photography temos o (bom) vício de sabermos as histórias associadas aos modelos que fotografamos, tanto a nível do dono do carro como relativo à evolução, desenvolvimento e background do próprio modelo.

Um projecto bem executado, com alterações de topo.

    Este artigo trás à AWP um modelo com bastante sucesso, não só enquanto versão desportiva do bem sucedido Golf V (ou mark 5) mas também como base de projectos de modificação automóvel como é este caso concreto mas a isso já lá vamos. O nome Golf provém do nome de uma corrente de vento do Atlântico, que surge na zona sul da Florida e se estende até às costas norte da Irlanda e Reino Unido, de nome Gulf Stream. Trata-se de uma «cortina» de vento quente e forte, importante não só para os ecosistemas marinhos das costas dos países referidos, como também na migração de várias espécies de peixes e outros animais. Com base na ideia do «transporte» de várias espécies, a Volkswagen decidiu dar o nome de Golf a um dos seus mais importantes e ambiciosos modelos. Nascido em 1974, o pequeno utilitário de motor e tracção dianteira, construção simples e eficácia de condução marcou uma nova geração de modelos que ainda hoje tem um enorme sucesso e trás milhões de € de receitas para a marca alemã.

     Mas não estamos aqui para vos falar do Golf em si. Como já perceberam, trazemo-vos a versão desportiva GTi que, não sendo a versão topo da quinta geração do Golf (ainda há o R32), é um modelo muito apetecível e até bastante acessível nos dias de hoje. O GTi marca a viragem não só da Vokswagen como de outras marcas no sector automóvel, dado que é responsável pela criação de um nicho do qual nenhuma marca hoje em dia quer ficar de fora. O GTI I (mark I) surge no mercado 2 anos após a versão base (em 1976, portanto) e foi criado à margem dos modelos «normais», dado que o grupo de engenheiros responsáveis pelo seu desenho não tinham propriamente autorização da marca para o criar. Mas após os esboços finais serem apresentados às chefias da marca alemã, a aposta tornou-se real e surge o primeiro dos GTi’s, proveniente do estúdio de design de Giugiaro, responsável pela famosa linha vermelha na grelha e pelos alargamentos de plástico nas cavas das rodas no exterior e a famosa bola de golf na manete de velocidades e o padrão de «tecido escocês» no interior. E assim se revolucionou o mercado e nascia o conceito de hothatchback.

    Cerca de 8 anos mais tarde, em 1984 surge o Golf II GTi (mark II) com um motor mais pojante (agora um 1800cc com 115 cv’s), mantendo a ideia inicial de leveza e agilidade. Esta geração conheceu evoluções como o G60 (160 cv’s) e o Rallye (com os famosos alargamentos de cavas e tracção integral). Continuando na árvore genealógica do Golf GTi, chegamos à terceira geração (mark III) lançada em 1987 que conheceu uma evolução em 1993, atualizando a Volkswagen o motor para um 2000cc de 150 cv, com velocidades máximas já acima dos 210 km/h e um maior nível de conforto. No fim da década de 90, em 1998, surge a quarta geração (mark IV) do GTi. O modelo base foi um grande sucesso de vendas mas o GTi viu os piores anos da sigla, principalmente devido à perda do carisma GTi, dado que esteticamente era muito semelhante às versões menos apimentadas. Tinha mais equipamento, e com base nisso, a Volkswagen quase caíu no erro de passar a usar a sigla GTi para um nível de equipamento ao invés de uma versão desportiva. Felizmente lançaram a edição 25th Anniversary que juntamente com a versão R32 relançaram as três letras desportivas e estabeleceram a ponte para a quinta geração (mark V) (que iremos aprofundar mais em seguida).

    Ainda surgiu a sexta geração (mark VI), em 2008, com estética evoluída da geração anterior, maior conforto e com um nível de excelência bem superiores ao modelo que viera substituir. Foi, talvez, dos maiores saltos qualitativos dos modelo Golf entre gerações seguintes. A versão GTi contava com o evoluído 2000cc de 210 cv e tinha ainda versões mais potentes como o R com mais 60 cavalos, na mesma base de motor. Em 2013 surge a mais recente versão do GTi, baseada na sétima geração (mark VII), onde os acertos estéticos e melhorias na acústica interior, qualidade dos plásticos e mais conforto foram os pontos mais importantes focados pela Volkswagen. O motor do GTi debita agora 220 cv e tornou-se mais económico que no mark VI.

    Sete gerações, o mesmo principio: um pequeno familiar com pretensões desportivas e capaz de fazer sorrir o mais sério condutor. E isso acontece! Dos vários condutores diários de Golf’s GTi, sejam eles de que geração forem, partilham todos da opinião que mais do que um desportivo acessível, o GTi é um modelo de culto, uma versão que faz com que os seus donos se sintam especiais e pertencentes a algo único. Esta descrição tão minuciosa é partilhada pelo Tiago, dono deste Golf V GTi que vos trazemos na AWP. Quando questionamos o Tiago acerca da opção pelo modelo desportivo da quinta geração ao invés de uma outra versão, conta-nos que a opção pelo GTi foi algo diferente do normal, uma história de «amor à primeira vista». Diz-nos ainda que quando comprou o carro, nem sabia explicar bem o que sentiu e que foi uma atracção que ninguém consegue explicar. Dado que o objectivo seria também desenvolver um projecto no estilo do low and slow, antes de ter o carro o Tiago fez uma pesquisa do modelo e depois de encontrar alguns modelos alterados, decidiu que tinha mesmo de ser. Normalmente para um amante de automóveis, o vulgo petrolhead, desenvolver o seu projecto acaba por ser um hobby que além de caro, é moroso. E o caminho pelo qual se entra para essas modificações tem muitas vezes ligações ao que se vê noutros projectos e estilos. Quando falamos sobre o estilo escolhido para este GTi, o Tiago diz-nos que sempre adorou o estilo de rebaixamento abusado, com jantes e pneus stretch, o que agora se define muito como stance, com a simplicidade das carroçarias a ser complementada com suspensão bem utilizada e jantes vistosas e de dimensões generosas. Quando lhe perguntamos se o projecto está concluído, sorri e responde-nos que não sabe bem, mas que sente que tem um sonho praticamente realizado e que o maior orgulho é quando algo que nós próprios criamos é reconhecido, tal como este Golf V, premiado em alguns encontros e eventos onde é inscrito.

O azul contrasta na perfeição com as BBS cromadas. Um conjunto soberbo.

    E há mais para conhecer da história do Tiago e do seu Golf V GTi, mas vamos agora falar (ou escrever, é mais correcto) sobre esta quinta geração. Como já dissemos em cima, surgiu depois de um modelo menos bem conseguido por parte da Volkswagen e trazia já a responsabilidade de trazer o GTi novamente ao topo da tabela dos mais vendidos, relativamente a hothatchbacks. Em 2003, o Salão de Frankfurt mostrava ao mundo esta nova geração, com pompa e circunstancia, dado que a marca alemã sabia de antemão a importância que a quinta geração tinha para os seus cofres. As melhorias implementadas no chassis e transmissão trouxeram uma dinâmica mais apurada e mais eficaz. Mas nem tudo foi considerado um avanço positivo face ao modelo antecessor, dado que a nível interior a qualidade perdeu-se um pouco, do ponto de vista dos plásticos usados e do seu toque – não dizemos isto por dizer, dado que o maior rival do Golf V era o A3, na altura bem melhor equipado, apesar de serem produzidos quase paralelamente. O motor 2000cc TFSi de 200cv provou ser mais que suficiente para dar bastante emoção à condução deste modelo que, juntamente com as referidas melhorias no chassis, era dos mais interessantes do segmento em termos de desportividade. O carisma das três letras estava de novo em altas e a Volkswagen voltava à ribalta.

    Esteticamente o Golf V marcou uma viragem no design. Com linhas mais curvas e um perfil ascendente desde a frente, a quinta geração do modelo da Volkswagen tem todos os painéis feitos de raiz face à quarta geração. O tal aspecto mais arredondado foi bem recebido pelos seguidores do modelo dado que se enquadrava melhor no estilo quer da marca, quer do mercado na altura. O maior destaque para a lateral e aquilo que permitia distinguir um Golf V «normal» da versão GTi são as saias laterais, em forma de «foice» que além de darem a ilusão do carro ser mais largo, complementam a própria altura (quando de origem) do GTi.

    O modelo GTi tinha, além do mesmo perfil e formato (claro) das versões menos potentes, para-choques específicos desta versão, mais baixos e mais desportivos. O da frente com entradas de ar generosas e a famosa grelha com o formato de favos de mel a negro atribuí ao GTi uma «cara» desportiva e agressiva. Neste modelo específico, os faróis opcionais de xénon são um excelente acrescento à frente, completando na perfeição a mesma. Entrando no campo das modificações, podemos ver os mínimos nos piscas, como as versões do mercado americano, juntamente com os sidemarkets (reflectores laterais) nos flancos do para-choques dianteiro. Ainda neste podemos ver o lip R-Line que compõe na perfeição a frente do Golf GTi do Tiago. A traseira, mais simples que a frente, mantém os traços gerais da versão GTi, com o escape duplo lateral mas encaixado na porção inferior e difusor da versão R32, tornando a secção traseira deste Golf mais desportiva, sobressaindo a imensa largura das jantes traseiras, quando se olha para aquela zona.

   E falando em jantes, estas são especiais. Tratam-se de umas BBS super RS de 18 polegadas, algo díficil de encontrar principalmente por a própria marca BBS já não as produzir há alguns anos. Aqui, o Tiago puxa dos «galões» e conta-nos que foi necessário ir até à Áustria para as adquirir. Inicialmente com 8 polegadas de largura (as quatro), o dono deste Golf tinha ideias fixas relativamente ao set rolante a colocar no Golf e por isso mandou colocar umas generosas abas de forma a alargar as BBS – na frente com 9,5 polegadas e atrás com… 12 polegadas! Isto, com pneus 215/35 e 235/35 respectivamente, resultando num stretch que é difícil de bater e efectivamente, resulta na estética que o Tiago idealizou para o seu projecto e conta-nos, espantado, que ficou surpreendido como era possível colocar estas medidas. Para «abraçar» estas medidas de pneumáticos e jantes, foi necessário trabalhar a chapa do Golf e alargar as cavas 2 cm na frente e uns fantásticos 6,5 cm na traseira! E tão focados nas jantes, torna-se obrigatório falar dos travões. Dado que o Golf GTi não é um carro lento, é importante parar em segurança e para isso o Tiago recorreu a travagem Porsche.

   Para o aspecto low que se pretendia, uma suspensão recorrendo a coilovers ou molas não chegava. A opção foi então a já conhecida suspensão pneumática (ou a ar – bags) que permite um rebaixamento inédito, com o lip da frente a ficar a 1 cm do chão. O Tiago recorreu à marca D2 Racing Pro para conseguir atingir o objectivo – este sistema utiliza dois comandos para programar a altura do automóvel: um recorre a memórias pré-seleccionadas e outro é completamente manual, para uma personalização máxima da altura do veículo. E realmente o estilo pretendido, o low&slow foi atingido, dado que se consegue aquele encaixe que muitos nesta área desejam, a chapa entre a aba da jante e a borracha do pneu.

    Ainda falando em modificações, a mecânica não sofreu alterações. Os 200 cv da versão GTi são mais que suficientes para atingir boas velocidades e chegar rapidamente aos limites nas estradas suiças (onde este Golf passa a maior parte do tempo). Apesar disso, o escape foi alterado para um Bull X em inox, pouco conhecido em território nacional mas com uma boa sonorização, rouca e grave, sem acordar a vizinhança mas o suficiente para mudar o «cantar» do motor TFSi.

     O interior tipicamente alemão, monocromático e neste caso, revestido a pele, traduz a ideia da Volkswagen de sobriedade mesmo em modelos mais desportivos. As «queixas» dos vários aficionados da marca relativamente aos plásticos acabam por ser, quanto a nós, algo exageradas, quando falamos de um automóvel que com os quilómetros que tem e o estilo que seguiu (suspensão dura e pneus baixos) nem tem muitos ruídos parasitas. Os bancos, quentes devido ás temperaturas acima dos 35ºC enquanto se fotografava, têm apoio lateral embora se sinta a falta de um maior ajuste nas pernas e zona dorsal quando curvamos depressa neste Golf. A sobriedade do tablier é «cortada» pelo rádio com ecrã táctil, navegação e leitor de DVD e pelas linhas a vermelho dos tapetes. Os logos GTi são também eles discretos, estando no volante e decalcados nos encostos de cabeça dos bancos frontais. Na bagageira, destacamos o reservatório de ar comprimido e a construção do sistema de suspensão pneumática, devidamente oculta sob um piso falso. Podemos dizer que gostávamos de maior efusividade no interior deste Golf, mas é algo que vai contra a própria filosofia da Volkswagen e quanto a nós, sem qualquer problema!

   A manhã já ia longa e em vésperas de mais um evento nacional onde este Golf iria estar presente, despedimo-nos do Tiago e agradecemos a disponibilidade (veio de Viseu até Lisboa) para a sessão bem como a simpatia e humildade com que nos cedeu a chave do GTi e nos brindou com a história não só do Golf GTi que tão bem alterou como do que é viver além fronteiras, num país que em termos de modificações automóveis é bem mais «permissivo» que o nosso. Resta desejar ao Tiago e sua família uma boa viagem de regresso e que para o ano nos encontremos novamente.

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