Código 1204

     Com o ano a chegar vertiginosamente ao fim, sentimos a necessidade de prestar mais uma homenagem. Bem, talvez homenagem não seja a palavra mais correcta. Queremos dar ênfase e atenção a mais uma bonita história entre um automóvel e o seu dono. Com as redes sociais cada vez a serem mais utilizadas para partilhas de ideias, fotografias e informações, sentimos que o nosso método de trabalho reunindo as informações, histórias e claro, fotografias num só local, num artigo, continua a ser imperativo. E se a isto lhe pudermos chamar homenagem, assim seja!

      Estamos novamente perto de Sintra a aproveitar os dias mais curtos e a queda da folha. O outono é talvez das estações do ano fotogenicamente mais interessantes pela mistura de cores quentes das folhas secas e frias da restante paisagem. O cenário continua a ser parte integrante e importante das nossas sessões fotográficas mas é o carro, neste caso um bonito e estimado Opel Kadett 1204, que é o objecto de focagem neste artigo. Sim, estamos de volta aos clássicos que tanto nos contam e que juntam gerações. Por isso, fiquem por aí, sentem-se e apreciem mais um clássico intemporal.

       E nesta viagem ao passado, vamos começar ao contrário do habitual. Começamos pela história e união entre pai e filho que se materializou neste Opel dos anos 70. E como de um clássico se trata, muitas são as histórias que certamente o Tiago partilha com este 1204 e que começaram quando ainda em jovem, a paixão pelos Opel começou na garagem de sua casa, graças aos modelos que lá eram guardados, estimados e cuidados, nomeadamente um Corsa GT e um muito interessante Kadett E descapotável. Com tão belas pérolas disponíveis para admiração diária, é normal que o gosto por automóveis e em especial pela marca do relâmpago cresça e se torne um dos pilares da vida deste petrolhead.

      E apraz-nos dizer (ou escrever, neste caso) que este 1204 já tardava nas nossas lentes pois já anteriormente tínhamos combinado realizar a sessão fotográfica mas o Kadett «armou-se» em diva e resolveu não colaborar. E quem ficou bem triste com esse episódio foi o filho do Tiago que já mostra o gosto e o «bichinho» pelos automóveis, pedindo sempre ao pai para o acompanhar nestas aventuras automobilísticos. Portanto, três gerações já contaminadas pela paixão automóvel. Certamente que não falta assunto à mesa nos almoços de família. Produzido no auge dos anos 70, o 1024 foi o primeiro Opel a utilizar a política de plataforma global do gigante GM, ideia que hoje é amplamente utilizada por inúmeras construtoras para diminuir custos e aumentar a produtividade e sucesso dos seus automóveis. E prova desta boa ideia é o facto do 1204 ter sido comercializado em dezenas de países com marcas e denominações diferentes como Vauxhall Chevette ou Isuzu Gemini. Por cá, era conhecido por Kadett (modelo C) ao invés do código interno (a Opel usava os 1204, 1604 e 1904 consoante a cilindrada do motor 1.2, 1.4 ou 1.9). No entanto e devido a histórias de falta de fiabilidade e interesse na compra a Opel Portugal alterou esta designação para a mais global numérica.

A simplicidade deste 1204 é contagiante.

     Este Opel 1024 tem uma forte presença, um impacto visual interessante e mais do que isso, gosta de ser fotografado. Já figurou em algumas publicações nacionais e chegou a hora do nosso destaque na AWP. Como já dissemos, trata-se de um projecto a dois, entre o Tiago e o seu pai Aureliano que demorou meses até conhecer a luz do dia. E para os que acham que recuperar um clássico é fácil, deixem-nos contar que este 1204 é, na realidade um «1+1», de dois modelos, se fez um. O 1024 inicial tinha a carroçaria em muito mau estado, não justificando o trabalho e dinheiro a investir. Assim encontraram outra carroçaria e avançaram no projecto. Foi preciso um ano praticamente para que os trabalhos de sábado dessem frutos e a carroçaria ficasse livre de podres e pronta a ser pintada.

      A cor escolhida foi um azul do catálogo da Opel da altura chamado Regata Blue. E que bem cai nas linhas clássicas deste Opel e fazem ressaltar os cromados e detalhes da carroçaria que desde o final de 2012 que rola pelas estradas portuguesas, participando em vários eventos desportivos e em encontros como o Sintra Clássicos e claro, os organizados pelo próprio Tiago no grupo Opel Classic Racers. Tal como a cor, também outros detalhes e extras foram instalados com o recurso ao catálogo da época. Exemplo disso são as jantes ATS classic de 7 polegadas (largura usada em modelos de competição) e os faróis extra que até a montagem (referimo-nos à sua posição) é conforme a marca e o tal catálogo.

    Já em termos de «performance» se assim podemos dizer, este 1204 também levou uns ajustes. O escape é mais largo e como tal, menos restritivo e para o alimentar este Opel conta com dois carburadores proveniente de um kit do Kadett B 1.1 Rallye mas que talvez no futuro seja trocado por um Webber duplo que apesar de não constar no tal catálogo, era uma modificação bastante comum na época em que estes modelos foram comercializados. Ainda assim, acompanhar este 1204 pelas estradas sinuosas de Sintra com um carro moderno e consideravelmente mais pesado é um «bico-de-obra». A agilidade do tal chassis T-Car e a forma como este clássico é conduzido diz muito do que aqui temos à frente da nossa câmara fotográfica.

     No interior respira-se nostalgia. O aroma a gasolina, a borracha dos tapetes e à pele dos bancos entra na nossa alma e obriga-nos a tirar uns minutos de contemplação. Por muito que a evolução automóvel seja mandatória e necessária, que as novas tecnologias e «modernices» sejam essenciais para a nossa segurança ao volante, nada bate o ambiente no habitáculo de um clássico. Mais do que a ausência de muita coisa que damos como garantidas nos modelos atuais, é o estilo e envolvência dos botões, manómetros, detalhes, tudo nos convida a conduzir este carro como parte de nós.

      O volante de dois braços junto ao quadrante com conta-rotações (extra também de época) são a figura central dentro deste Kadett (ups… 1204 então). A pele perfurada que forra os bancos que hoje em dia é tão apreciada nos nossos automóveis dá o aroma a classe e desportividade a este habitáculo e apesar de não serem dos que agarram os passageiros convenientemente, deixam o estilo comandar. Na consola central, o detalhe vai para os 4 indicadores da versão mais vocacionada para a condução desportiva, a SR.

       Tal como neste 1204, não demos pelo tempo a passar. Cada ângulo que exploramos de um carro clássico faz-nos querer saber mais e conhecer a história, a sua história; aquela que juntou pai e filho em volta de um aglomerado metálico e que hoje, 11 anos depois da sua aquisição, nos premeia com a beleza e intemporalidade que apenas um automóvel clássico nos pode dar.

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