Capítulo I – o GTA familiar

    Sabem aquela dificuldade habitual em começar a escrever? O chamado «bloqueio do escritor» que acontece mais vulgarmente do que gostaríamos e que nos limita a nossa capacidade de transpor para um texto aquilo que pensamos e que vivemos em determinado momento. Mas desta vez isso não aconteceu. Aliás, começar a escrever neste caso específico foi mais simples do que esperávamos. Talvez pela mística que envolve este artigo, talvez pelo novo site nos inspirar mas sem dúvida que se deve ao automóvel que aqui retratamos, o belo Alfa Romeo 156 GTA e também ao local claramente de sonho onde este 156 repousa diariamente.

A postura desportiva com a praticabilidade de um familiar. Eis o 156 GTA

     Esqueçam os museus automóveis ou concessionários elegantes. O que mostra a verdadeira paixão automóvel e a petrolheadice é mesmo um piso inteiro de um parque de estacionamento inteiramente reservado à paixão automóvel, aqui dividida entre a Alfa Romeo e a Fiat (e claro, a Abarth). A All Wheels Photography tem conhecido ao longo dos meses de evolução muitas pessoas ligadas com mais ou menos intensidade ao mundo automóvel e quando uma dessas pessoas nos convida duas e três vezes para irmos conhecer o seu recanto especial, é algo a que temos de dar uma resposta positiva. Não vale muito a pena tentar descrever por palavras aquilo que os nossos olhos viram e o coração sentiu quando o portão da garagem abriu e nos deparámos não com um, nem com dois automóveis mas sim com quase uma dezena de automóveis italianos envolvidos em milhares de artigos de memorabilia relacionada com eles e com outros modelos da marca. Se nos seguem com alguma regularidade, certamente que já perceberam que estamos a falar de uma família de Alfistis que gosta, cuida, vive e respira a marca italiana.

Bibliografia impecavelmente guardada... um sonho!
Ar ameaçador mas de trato fácil.

     Os segundos e terceiros capítulos desta história familiar estão escritos e retratam o 147 GTA de estrada e o 147 GTA de pista que esta família tem mas faltava o primeiro capítulo, o familiar apressado que apesar do aspecto menos aguerrido, mantém a potência, desportividade e dinâmica de um GTA. E claro que temos de abordar esta sigla para que possamos perceber de onde vem o DNA desportivo da marca que apesar dos contratempos, continua a ter uma legião de fãs e seguidores que se juntam nas redes sociais, em encontros semanais e em grandes eventos nacionais, a sua maioria com apoio de concessionários da própria marca. Um universo de octanas, carisma e argumentos históricos que poucas marcas se podem orgulhar.

   Na década de 60, o desporto automóvel começa a ser visto como uma modalidade onde se pode investir e ganhar dinheiro. As marcas automóveis rapidamente perceberam isso e desenvolveram modelos para competir nas várias áreas, mas uma onde mais investimento foi feito foi na divisão de Turismo. Em 1964 inicia-se o percurso da Alfa Romeo nesta divisão, através da criação de uma divisão desportiva, a Autodelta que se seguiu alguns meses depois da sua criação nos arredores de Milão, terra-natal da marca italiana.

    Um ano depois, surgiria a primeira criação para as estradas e para o comum condutor, o Alfa Romeo GTA (A de allegerita – leve), baseado no Guilia Sprint GT. Basicamente, e tal como nos dias de hoje, a Alfa Romeo teve de criar para competição um derivado de um modelo de estrada para conseguir a homologação. No total, foram produzidos quinhentos 1600 GTA juntamente com mil e trezentas versões de estrada.

Ainda hoje o 156 parece atualizado e transparece a desportividade das décadas vitoriosas da Alfa Romeo.
As quatro pequenas entradas de ar transportam-nos para o início da aventura da Alfa Romeo na competição e ainda hoje marcam o design dos carros da marca da anterior década.

     E o que é importante no mundo da competição automóvel? Potência e baixo peso, dois factores em uníssono no Guilia Sprint GTA que passaram para o sucessor, o 1300 Junior. Também neste modelo, a versão GTA era mais potente e leve que a versão de estrada mas esteticamente pouca diferença se verificava. Já na década de 1970, a sigla GTA passou para o 1750 GT Veloce America mas neste modelo já havia bastantes alterações entre a versão de estrada e a de competição. Com alguns anos de interrégno, a Alfa Romeo volta à competição em 1992 com os 155 Q4 (GTA), modelo que da versão «civil» apenas partilhava nome e parte do formato da carroçaria) e que deu á marca italiana 17 vitórias em 20 corridas, abrindo caminho ao 155 V6 Ti preparado já para o campeonato DTM alemão e depois para o Campeonato Europeu de Turismo, onde o 156 GTA defendeu as cores da marca e somou excelentes resultados.

     Tal como no passado da marca, também no virar do século a Alfa Romeo teve de produzir versões de estrada em número suficiente para que a FIA aceitasse a inscrição do 156 na competição de Turismo. Surgiam assim as duas versões do 156 GTA, o elegante mas desportivo sedan e a familiar e dinâmica carrinha Sportwagon. O objectivo da marca era juntar num modelo a beleza da marca, o cunho desportivo, boas performances e claro, dinâmica apurada proveniente do seu pedigree de competição. Lançado em Maio de 2002, 5 anos depois da versão «normal» (que se conheceu na apresentação internacional em Lisboa), os 156 GTA foram um grande sucesso e rapidamente aceites pelos fãs da marca que ansiavam por uma versão mais desportiva que fechasse o ramo de ofertas do modelo que se tornou dos Alfa Romeo mais vendidos de sempre.

   Já sabemos que juntar a versatilidade de um carro familiar com um motor potente é boa ideia. Mas não obstante, há bem mais do que isso no 156 GTA. A ideia da Alfa Romeo é transparecer para as viagens do dia-a-dia o feeling de conduzir em pista e a adrenalina da velocidade controlável. E se falamos de velocidade e potência, abordemos já o coração deste GTA. Tal como no irmão mais pequeno 147, também no 156 temos ao dispor 250 cavalos provenientes do motor V6 de 3 litros e 24 válvulas «emprestado» do Alfa 166, GTV e Spider, que após vários anos no activo, continua a mostrar que é um bloco resistente, potente e fiável. Como a potência máxima fica disponível perto das 6200 rpm, ouvir o «ronco» deste GTA torna-se obrigatório. A subida do ponteiro das rotações é acompanhado pelo nosso bater de coração, ansiosamente a aguardar pelo momento da passagem de caixa e claro, pelo respectivo «uivo» final que nos faz querer fazer tudo de novo.

    O 156 GTA conta com alterações estéticas que foram realizadas com o intuito de melhorar a dinâmica do modelo. Basicamente pode dizer-se que todos os ajustes e mudanças no aspecto do 156 GTA têm um propósito simples: tornar este 156 bem rápido. A frente é mais larga. Não só o eixo mas também toda a carroçaria. Os guarda-lamas são agora mais envolventes e conseguem acomodar jantes de 17 ou 18 polegadas e derivam num pára-choques mais agressivo onde as luzes de nevoeiro foram «trazidas» para as extremidades de forma a otimizar as entradas de ar fornecendo mais ar ao V6. Para acentuar o aspecto desportivo da frente, as ópticas de fundo negro são uma exclusividade do GTA.

      A lateral mostra o aspecto prático do 156. Quatro portas, um perfil de janela alto e um bom porte permitem perceber que este 156 é mais do que um simples desportivo. É-lo sem perder a herança familiar e a possibilidade de levar quatro adultos numa viagem longa sem qualquer desconforto. A saia lateral oferece mais desportividade ao conjunto e a saída da mesma junto à roda da frente permite dissipar o calor proveniente dos travões e ajuda ao observador fazer uma ligação estética entre a frente e a traseira. As bonitas jantes multi-raios escondem os potentes travões Brembo de 330mm com 4 pistões na frente e 276mm na traseira com gestão electrónica da distribuição da força de travagem.

   A traseira dispensa grandes «asas» ou spoilers. O apoio aerodinâmico é garantido através de uma lâmina central que dissipa o ar proveniente da frente e aumenta o peso da traseira, permitindo que a altas velocidades a estabilidade deste 156 GTA seja surpreendentemente elevada. Do ponto de vista estético, resulta bem acentuando o carácter desportivo sem ser excessivamente agressivo. As saídas de ar das extremidades, junto aos reflectores, ajudam a perceber que, quando vamos atrás de um destes modelos, é melhor ter algum cuidado com possíveis «desaparecimentos» caso o condutor do automóvel italiano carregue no acelerador!

    O interior acompanha o trabalho feito no exterior. Desportividade sem exageros, conforto e praticabilidade sem perder o componente único que é estar a bordo de um GTA. A pele dos bancos em tom escuro (Peltro grey), a elegância das linhas do tablier e do volante transparecem a elegãncia italiana do modelo 156. Os componentes desportivos englobam o volante de três braços de pega desportiva, a manete de velocidades e travão de mão com inserções em pele. O 156 GTA conta com pedais desportivos em alumínio e inserções de borracha que intensificam o feeling numa condução de «faca-na-mão». Claro que num desportivo é a atenção aos detalhes que também vende e o fundo do quadrante escuro e os manómetros de pressão e temperatura de óleo sob o rádio são pormenores deliciosos a bordo deste GTA e que invariavelmente estão virados para o condutor.

    O 156 GTA é um poço de surpresas. Um automóvel incomum que alia a classe de um familiar às performances de um desportivo onde os detalhes de boa classe italiana estão presentes. A condução deste 156 é digna de um coupé rápido, devorando as curvas com uma correcta postura, segurando-se na trajectória devido à utilização de barras estabilizadoras 20% mais espessa na frente e 28% atrás quando comparado com os normais 156 e à suspensão mais firme e rebaixada em cerca de 20mm. O cantar do V6 e do escape desportivo evocam os tempos aúreos das décadas de sessenta e setenta onde os GTA eram reis e senhores das pistas, espalhando o charme do automóvel italiano por todo o mundo.

   Depois de três artigos onde o «alfismo» falou alto, não há volta a dar. Aliás, ao privarmos com esta familía já sabíamos que este seria o desfecho. Somos apaixonados por automóveis, mas só depois de andarmos em Alfa Romeo, conhecermos as suas histórias e claro, o ambiente de verdadeira dedicação a uma marca, só então conseguimos compreender o verdadeiro significado de paixão automóvel.

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