A Vespa

     Se há algo que invoca a inspiração para escrever um artigo é fazê.lo sobre um ícone. Claro que tudo se torna mais fácil e quase automático mas se a esta informação adicionarmos o facto de estarmos a escrever sobre a primeira mota a ser fotografada para o portefolio da All Wheels Photography então aí temos ingredientes para nos divertirmos ao teclado a contar uma bela história. Bem, voltemos ao início e ao ícone de que falamos. Trata-se de uma mota que simboliza a liberdade na sua forma mais pura e emblemática, pois além de um meio de transporte, a Vespa é uma forma de vida (tal como diz o slogan da marca «not just a scooter, a way of life»).

     Sendo uma sub-marca da Piaggio, a Vespa é produzida em Itália desde 1946 em Pontedera, a zona industrial de Pisa e já passou por inúmeras reformas e reestruturações que apesar de importantes, não alteraram o conceito da scooter de simples manutenção, fiável e resistente. A Vespa é conhecida pelo seu corpo de peça única composto por três secções importantes: a frente aerodinâmica e larga para protecção do vento, a base resistente para apoio a ambos os pés e o resguardo fechado do motor que o protege das agressões externas.

     Em termos históricos, a Piaggio aproveitou o pós-segunda guerra mundial para recuperar parte da indústria da zona de Pisa aproveitando a fábrica de componentes aeronáuticos de Pontedera. Vários projectos e protótipos foram feitos ao longo dos anos 40 sendo que em 1946 foi oficialmente patenteada a ideia de um veículo de duas rodas com a estrutura básica e de carácter único de uma scooter, sendo nesse ano produzidos 13 exemplares claramente inspirados no passado das aeronaves produzidas na zona. No ano seguinte foram produzidos 2500 exemplares e começava aí o grande desenvolvimento da Vespa enquanto ícone italiano da liberdade em duas rodas.

     A Vespa enquanto marca ganhou espaço no mercado das duas rodas em especial no nicho das scooters. Este mercado esteve estagnado no início deste século mas com o aumento do tráfego nas grandes cidades e da liberalização das licenças de condução, as scooters foram recuperando os números de venda e surgiram imensas marcas e modelos. Contudo, a veterana Vespa manteve os seus traços originais, soube adaptar-se às exigências modernas e conseguiu impôr-se enquanto ícone destas pequenas motas. Além dos novos modelos, algo que tem crescido nos últimos anos é a recuperação de velhas glórias…

     Dentro de barracões, debaixo de árvores, atrás de casas ou abandonadas em ferros velhos, são vários os locais onde estas pequenas Vespas se podem encontrar (e não falo do insecto que lhe deu o nome). O crescer de empresas de restauro e recuperação de automóveis e motas tem ajudado a não deixar morrer vários destes exemplares que muitas vezes apenas têm danos estéticos perfeitamente recuperáveis e que por diversas razões, são deixadas ao acaso do destino até que alguém tenha possibilidade de lhes dar uma segunda oportunidade.

Todos os detalhes desta Vespa merecem atenção fotográfica.

      Foi o que aconteceu a esta 125 GTR amarela, salva pelo nosso amigo Rúben e pela Vintage Factor que tanto têm contribuído para a AWP e para o nosso crescimento. Há cerca de 5 anos o Rúben estava a passar na zona de Tires e ao passar numa das tais oficinas de recuperação de motas reparou numa velhinha e triste Vespa amarela, corroída pela ferrugem e com ar de dadora de peças. Esperançoso e com o gosto pela Vespa a falar mais alto, abordou o dono da oficina de forma a poder adquirir a pequena scooter. A resposta negativa da primeira abordagem não o demoveu da ideia e no dia seguinte voltou a insistir, oferecendo um valor que lhe parecia justo e pedindo para ver a mota a trabalhar. E à primeira tentativa, depois de abrir a torneira da gasolina e o ar, lá ouviu o ronronar do motor e o cheiro a gasolina mal queimada tão típica destas motas.

      Apesar da insistência, o dono da oficina referia ter planos para a 125 amarela e não a queria vender, mas o Rúben já estava perdido de amores. O 13 na matrícula, o ano de produção 1978 (da mesma idade que o Rúben e apenas com um mês de diferença) e claro, a paixão Vespista não o demoveram de sonhar com a sua aquisição e de a juntar à sua interessante garagem. Capricho explicado em casa (quando se é um verdadeiro petrolhead, o grande desafio por vezes é explicar as paixões aos outros, em especial às respectivas caras-metade), Rúben dirigiu-se à oficina uma terceira vez e explicou que a sua paixão pela Vespa vinha de longe e que ele seria um excelente cuidador daquela pequena scooter mas mais uma vez, voltou para casa de mãos a abanar.

      Umas semanas mais tarde, ia o Rúben de viagem para o Algarve e liga-lhe o dono da oficina a dizer que se queria mesmo a 125 GTR amarela, teria de lá ir no dia seguinte sem falta buscá-la, antes que se arrepende-se. Lá teve de haver jogo de cintura e a envolvência de familiares para cumprir mais um feliz capítulo na garagem do Rúben. E, coincidentemente, era altura de aniversário do próprio portanto seria uma excelente prenda.

        Chegava o dia seguinte e lá foi a esposa e um primo buscar a pequena Vespa e… pois, a história contada pelo entusiasta à sua esposa talvez estivesse um pouco empolada, criando na mesma uma imagem de uma Vespa em excelentes condições, bonita e pronta a ir para um museu dedicado. No entanto e ao ver o estado da mesma, a esposa do Rúben teve de lhe ligar para confirmar que era «aquilo» que ia buscar, dado o estado menos bom da 125 amarela. A sorte foi o primo que a acompanhava ser também ele um grande Vespista e que fez questão de apoiar e trazer a Vespa até Sintra. Estava cumprido mais um sonho.

      Várias viagens feitas e quilómetros percorridos, cerca de 4 anos depois deste romance, ao parquear a Vespa na sua garagem e colocar o descanso, cai um pequeno pedaço de ferrugem e foi o primeiro passo na recuperação e restauro desta 125. Efectuada na Vintage Factor, a pequena Vespa ganhou uma nova vida e o brilho que nunca devia ter perdido. Restauro feito e 100% original, era altura de a batizar adequadamente e esse batismo decorreu durante a travessia do nosso país, num evento dedicado às Vespas que ligou Chaves a Faro, numa semana. E problemas? Zero!

      E o que é melhor para fotografar esta Vespa 125 de Sintra que… Sintra? Manhã de fim-de-semana, 7h da manhã e a zona histórica e intensamente turística toda só para nós, onde difícil foi escolher as fotos que aqui figuram, dada a fotogenia desta pequena mota e da envolvência colorida e quase que celestial das ruelas da zona. Um momento que fica para a nossa história e na nossa mente certamente e tal como dizem acerca da aquisição das Vespas (o espírito Vespista é mesmo contagiante), o difícil é começar com a primeira. Venham mais duas rodas, que nós cá as receberemos.

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