71 Serie III by LR

     Desconfortável, pesado, barulhento, com cheiro intenso a gasóleo e que quase nos atira de um banco para o outro quando descemos um simples passeio. O volante é pesado, a caixa de velocidades parece não existir e temos de almoçar um bom naco de carne para ter força para carregar na embraiagem. Ao mesmo tempo, bater a porta deste Land Rover é como fechar a escotilha de um tanque. Encostamo-nos no banco e fechamos os olhos e a aula de história parece arrancar rapidamente. O tal cheiro intenso invade os sentidos, sentimos o trepidar do motor diesel de 4 cilindros e preparamos a zona lombar para os impactos que vamos sofrer ao conduzir este Serie III. Mas haverá melhor forma de andar por estradões? Aceitamos o convite da Garagem_87 para conhecer este importante marco da história automóvel.

 

Camuflado pela vegetação invernil, este Serie III foi uma verdadeira surpresa fotográfica.

     Há uns dias mostrámos um interessante e recém recuperado Range Rover e falámos um pouco da icónica marca que se mantem fiel à ideologia inicial de construir veículos capazes de ir a qualquer local do mundo. No entanto, a luxúria e novos horizontes têm ditado uma viragem cada vez mais para o lado do SUV mas ainda assim, as capacidades de todo-o-terreno mantêm-se. Hoje a estrela do artigo é este clássico Land Rover Serie III de 1971, precisamente o ano em que foi lançada essa geração, 10 anos depois de surgir no mercado o Serie IIA. As principais diferenças de um para o outro são na grelha frontal em plástico e no painel de instrumentos que passou do centro do tablier para atrás do volante. Claro que a nível mecânico havia melhorias, nomeadamente na suspensão traseira e na caixa de velocidades, bem como afinações nos diversos motores e até a introdução de um V8, já no fim da produção desta versão.

«One life, live it»,

     Enquanto mudávamos o Serie III de local para continuar as fotos, apareceu um senhor, de idade já algo avançada que passeava o seu cão. Parou junto do Land Rover e ficou a apreciar a sua pintura esbatida, com ar vintage e todos os seus detalhes. A capota em lona creme oscila com a pequena brisa que ia percorrendo o trilho e parecia enfeitiçar o referido senhor, que por ali continuo durante uns bons minutos, até desligarmos o motor. De sorriso na cara, limpou o canto do olho, olhou para nós e depois de um aceno de adeus, seguiu com o seu amigo de estimação. Não falou, não nos perguntou nada, apenas sorriu, como se tivesse visto neste Land Rover um velho conhecido. Podíamos ter questionado se esteve em serviço militar com um destes Serie III, dado que foi muito utilizado em variadas iniciativas nacionais e internacionais, por todo o mundo, mas não quisemos interromper este momento tão incomum e ao mesmo tempo, interessante.

     Bem, voltando à marca, foi em 1947 que a Rover inicia o desenvolvimento de um projecto/veículo de trabalho capaz de funcionar como substituto do trator nas quintas inglesas, ser carro de família e ao mesmo tempo, manter as capacidades diversas em termos de usos profissionais, seja no serviço militar, para a saúde ou outras necessidades do pós-guerra. A primeira tentativa era no mínimo estranha, com volante e lugar do condutor a nível central e foi construído num chassis de um Jeep, com peças encontradas na fábrica da Rover. Apartir deste atabalhoado primeiro exemplar, a Rover fez 48 unidades pré-produção com várias versões, para mostrar o que podia ser feito dali em diante.

    Certamente que nas várias fotos que já viram até este momento, repararam na frase que está nas laterais deste Serie III «One Life, Live it». Confessamos que tivemos de questionar a um fã dos Land Rovers a origem da referida frase, que já vimos em inúmeros veículos de todo-o-terreno, especialmente da marca inglesa. Resumidamente, a frase foi definida como mote na expedição Camel Thophy na América do Sul, na Tierra Del Fuego. Contudo, foi amplamente utilizada em automóveis, em mershandising como canecas, t-shirts e imensas outras coisas, inclusive páginas no facebook ou até livros. No entanto, faz sentido neste Serie III, por ser uma peça que transporta para o mundo moderno a importância dos veículos todo-o-terreno na história.

     Já com bastantes fotos no cartão e com alguns locais já explorados, era hora de nos despedirmos deste icónico jipe. Voltamos a cumprir penosamente todos os passos para ligar este Land Rover e depois de estar a trabalhar, procuramos a primeira velocidade para iniciar a marcha. Seria injusto deixar passar a ideia que conduzir este Serie III é um autêntico pesadelo, pela forma como começámos o artigo e por estas palavras. Mas mais do que uma direcção pesada, uma caixa de velocidades imprecisa e uma tremenda falta de conforto, este Land Rover relembra-nos a arte da envolvência com um automóvel, a paixão que une homem e máquina e principalmente, transmite-nos tudo, sem filtros, sem tecnologias, sem confortos, transportando-nos de imediato para campos de batalha, missões humanitárias ou passeios pelas florestas tropicais. Tudo, sem sair do local onde estamos, apenas e só por estarmos a bordo de um Land Rover, denominado por muitos the best 4x4xfar.

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